São Paulo, 18 (AE) - A dupla vitória - entrar no pátio interno do palácio, cercado de grades desde 1984, na gestão do prefeito Paulo Maluf, e a assinatura do convênio para novos mutirões - foi comemorada pelos sem-teto. Usando um boné de rastafari, com as cores da Jamaica, o paraibano Luiz Gonzaga da Silva, um dos coordenadores do Movimento de Moradia Centro, aproveitou o microfone para dizer uns desaforos aos guardas-civis. "Somos trabalhadores como vocês, tão sem-teto quanto nós".
Sob aplausos, Silva, que "mora de favor", prometeu levar "600 mil" sem-teto para passar "como tratores" sobre as grades do Palácio caso a Prefeitura não atenda a suas reivindicações. "Em quatro anos, Pitta não fez sequer casa de cachorro quanto mais casa para o cidadão", disse. "Entramos na raça". Satisfeita, Evaniza Rodrigues, da União dos Movimentos de Moradia, cumprimentava os militantes. "Governo é que nem panela: só funciona na pressão!"
O metalúrgico Djalma Gouveia, de 25 anos, que pleiteia uma casa de mutirão no bairro de Guaianases, onde já vive com a mulher e dois filhos, não via razão para alegria. "Até agora a Prefeitura só empurrou o problema com a barriga", disse. "Cingapura é quitinete, não interessa". Veterana em protestos, a dona de casa Maria Eunice Correia, de 52 anos, já acampou várias vezes em frente da Prefeitura. Assim conseguiu sua casa, feita em regime de mutirão, aos sábados e domingos, durante três anos.
Trabalhava como faxineira de manhã e numa fábrica à tarde. "Mais difícil foi entrar no Palácio dos Bandeirantes", contou. "Os guardas não deixavam chegar perto nem vender suco, coxinha, essas coisas que a gente leva para alimentar o povo". Hoje ela "representava" uma vizinha. Elaine Cristina Simone, de 26 anos, deixou sozinhas as filhas de 10 e 4 anos, em Rodolfo Pirani, zona leste, para ir à manifestação. "Não desisto de ter o que é meu".
Josélia Souza Santos, de 28, mãe de cinco filhos, inscrita há dois anos no movimento, mora em um barraco, em Pirituba. "Já tenho um terreninho; basta ele assinar para a gente construir". (Rosa Bastos)

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