Londres, 13 (AE) - Uma manifestação em defesa do cancelamento da dívida externa de países do Terceiro Mundo reuniu cerca de 4 mil pessoas hoje em Londres. O Brasil foi representado no encontro pelo bispo de Jales (SP), dom Demétrio Valentini, que procurou vincular o endividamento externo do País às chamadas "dividas sociais". Segundo ele, os recursos destinados aos credores externos são subtraídos da área social, provocando o que chamou de "estrangulamento" de programas destinados principalmente à Saúde e Educação.
O Brasil, no entanto, não está incluído na lista dos países que seriam diretamente beneficiados pela pretendida redução da dívida externa. O programa montado nesse sentido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, em 1996, destina-se às nações consideradas extremamente pobres e altamente endividadas.
Inicialmente ,foram incluídos nessa relação 41 países, dos quais quatro na América Latina - Honduras, Nicarágua, Guiana e Bolívia. A pretensão dos organizadores do movimento, batizado como "Jubileu 2000", é de que essa lista seja ampliada para 52 países em todo o mundo.
No caso brasileiro,a coordenadora do movimento para a América latina, Liana Cisneros, do Peru, acredita que o caminho a ser adotado é a análise caso a caso dos empréstimos externos concedidos ao País, especialmente durante o período do regime militar.
As mesmas condições seriam válidas para a Argentina e o Chile, que também não estão relacionados como beneficiários do processo de cancelamento da dívida externa. Assim, segundo ela, seria possível checar a legitimidade desses empréstimos e reivindicar o seu possível cancelamento. "Esses recursos foram concedidos sem o menor escrúpulo para governos didatoriais e não há porque pagá-los", afirmou.
Moratórias - Apesar dessa retórica, tanto a coordenadora do movimento para a América Latina como dom Demétrio Valentino procuraram afastar as comparações com as iniciativas de moratória na região nos anos 80, como foi o caso do Brasil e do Peru.
"Dessa vez, trata-se de um movimento que está baseado na sociedade civil, e não governos", argumenta Liana Cisneros. "Não pensamos em moratória unilateral mas sim em envolver credores e devedores nessa discussão", completa o dom Demétrio.
No discurso que fez em português e que foi traduzido para o inglês, para uma platéia que se misturavam ingleses e representantes de comunidades do Terceiro Mundo em Londres, o bispo carregou no conteúdo religioso e no ataque ao que chamou de política neoliberal.
"A dívida externa se tornou a nova forma de colonização imposta hoje aos países periféricos", discursou. Em entrevista a jornalistas brasileiros, ele ainda acrescentou a proposta de "taxar toda aplicação financeira", embora não tenha fornecido detalhes sobre a idéia.
Dom Demétrio afirmou que a dívida latinoamericana é da ordem de US$ 709 bilhões e sustentou que a América Latina pagou US$ 700 bilhões de juros nos últimos 30 anos.
A manifestação, que começou em Trafalgar Square, no centro de Londres, ainda incluiu uma ruidosa comemoração às margens do Rio Tâmisa. Os brasileiros chamaram atenção com bandeiras e balões coloridos de verde e amarelo. O toque final foram dois grupos de samba já tradicionais em Londres: O Quilombo do Samba e a London School Of Samba.
O próximo passo planejado pelos organizadores do movimento "Jubuleu 2000" é a entrega do documento com suas reivindicações aos integrantes do G8, grupo dos países desenvolvidos, que se reúnem no próximo sábado, em colônia, na Alemanha.
De acordo com os organizadores, cerca de 20 milhões de assinaturas foram coletadas em apoio ao movimento, das quais cerca de 700 mil são de brasileiros.

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