Washington, 16 (AE) - Apesar da barreira humana que milhares de manifestantes formaram hoje no centro de Washintgon para bloquear os acessos às sedes do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, a reunião semestral dos órgãos deliberativos das duas instituições instalou-se no horário e cumpriu a agenda prevista. Seis dos 24 ministros do Comitê Financeiro e Monetário Internacional (CFMI), entre eles Pedro Malan, tiveram problemas para chegar ao prédio e só conseguiram fazê-lo depois de várias tentativas. A polícia de Washington e o Serviço Secreto do governo federal, que se prepararam durante semanas para os protestos, controlaram a situação com ações preventivas, muita paciência, um mínimo de força e frustraram o objetivo dos estimados 6 mil a 10 mil manifestantes de repetir a vitória política da mobilização contra a globalização que impediu a instalação da reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), em Seattle, em dezembro passado, e acabou contribuindo para o colapso daquele encontro.
Ao contrário dos eventos de Seattle, que se transformaram numa batalha campal e chocaram os americanos, os protestos de Washington foram tranquilos, com poucos momentos de real tensão e apenas um de confrontações, nas quais a polícia usou gás de pimenta e gás lacrimogêneo. Sob o sol da primavera, as manifestações criaram um clima mais de festival do que de protesto.
"Nosso objetivo era garantir que a reuniões do FMI e do Banco Mundial se realizessem e permitir que as pessoas protestassem pacificamente", disse o chefe da polícia de Washington, Charles Ramsey, no final da tarde. Ele estava menos seguro, no entanto, sobre o que poderá acontecer hoje. No início da noite, discutia-se a possibilidade de se antecipar para ontem a reunião do Comitê de Desenvolvimento do Banco Mundial, que está prevista para hoje, para esvaziar os protestos e evitar a paralisação do centro de Washington numa segunda-feira. "Neste momento, as chances de os negócios abrirem no centro da cidade, amanhã, são remotas", disse Ramsey.
O chefe da polícia passou o dia comandando as ações na ruas e em diálogo constante com os manifestantes. "Paz e nenhuma violência, certo?", repetia ele, no final da manhã, cumprimentando alguns dos jovens de bandana e roupas coloridas que formavam cantavam palavras de ordem. "Eu sou um produto dos anos 60 e o que vocês estão fazendo hoje lembra-me muito do que minha geração fez quando jovem", disse Ramsey.
Diante da sede do FMI, Michael Moore, o neo-zelandês de 51 anos que dirige a Organização Mundial de Comércio, e participou dos protestos da década de 60 na Austrália, chamou atenção para a diferença entre as manifestações daquela época e as de hoje. "Creio que nós tínhamos mais noção sobre contra o que protestávamos", disse ele .
Ao anunciar os resultados da reunião, no final da tarde, o presidente do CFMI, o ministro das Finanças da Inglaterra, Gordon Brown, disse que os governos membros do FMI "não voltarão para trás" na globalização e indicou que os protestos não afetaram as discussões das propostas de reforma da instituição. De fato, em seus discursos, nenhum ministro referou-se às manifestações. Estes não foram mencionados tampouco nos comunicados oficiais dos ministros dos países das sete maiores potências econômica, o Grupo dos Sete, que se reuniram no sábado, ou no do CFMI, ontem. A única referência indireta foi feita por Brown, para agradecer o trabalho da polícia de Washington para garantir a realização da reunião.
Como esperado, os ministros deram o sinal verde para a continuação do processo de reformas do FMI, introduzindo mudanças em suas linhas de créditos com o objetivo de encurtar a duração das intervenções da instituições nas crises e desencorajar os países a se tornarem tomadores habituais de empréstimos do Fundo. As mudanças propostas, que deverão ser sacramentadas na reunião anual da instituição, em setembro, em Praga, reforçam também o papel de supervisão do FMI sobre as economias dos 182 países membros e torna mais transparente o fluco de informações entre os governos e a organização.

mockup