São Paulo, 19 (AE) - Cerca de 300 perueiros podem ter sido usados hoje para tentar desviar as atenções de um protesto favorável à criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da oposição. Eles chegaram à Câmara por volta da zero hora de hoje com o argumento de que iriam acompanhar a sessão e pressionar pela votação do projeto que pode legalizar a situação de mais 4 mil perueiros da cidade. Ao mesmo tempo, entidades religiosas - apoiadas por outras entidades civis, como a Força Sindical - iniciavam um movimento intitulado "Vamos Limpar São Paulo! Xô Corrupção", que deve voltar a promover manifestações a partir da próxima semana.
No carro de som utilizado pelos perueiros havia uma faixa com uma mensagem de agradecimento ao prefeito pelo fato de ele ter enviado o projeto de lei à Câmara com um pedido de urgência. Se até novembro o projeto não for aprovado, toda a categoria será considerada clandestina pela ausência de uma lei de regulamentação da atividade e estará sujeita às blitze municipais. Hoje, a cidade tem, pelo menos, 10 mil perueiros. Um dos líderes da categoria, Haroldo Mariano, negou a manobra política. "Estamos aqui para pedir a votação, aprovação e a sanção do projeto de lei da categoria", afirmou. "O prefeito pediu urgência há 15 dias e até agora nada aconteceu".
Diante das perguntas sobre a posição dele com relação à CPI, Mariano adotou um discurso semelhante ao utilizado pelos vereadores governistas que não queriam ouvir falar de nenhum tipo de CPI até há algum tempo. "Sou a favor dos trabalhos da polícia e dos promotores", disse, recusando-se a confirmar que é contrário à aprovação da comissão. Há cerca de 15 dias, a categoria fez uma grande manifestação no Palácio das Indústrias, onde fica o gabinete do prefeito Celso Pitta (sem partido), agradecendo pelo envio do projeto com pedido de urgência. A categoria recolheu cestas básicas e entregou aos projetos sociais da Prefeitura e fez uma queima de fogos.
O problema é que o projeto da legalização das peruas não poderia ser votado hoje porque ainda está sendo analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e precisará de mais alguns dias para ser levado ao plenário. O líder do PSDB, Dalton Silvano, conversou com os líderes da categoria e explicou a "jogada". "O Executivo mandou os perueiros para cá, mas não há condições de votar o projeto hoje". Então, algumas lideranças participaram de uma reunião com o presidente da Casa, Armando Mellão (sem partido), que prometeu para terça-feira a colocação do projeto na pauta de votação.
Depois disso, um grande número de perueiros permaneceu no plenário, mas o clima era de absoluta insatisfação. "Nós fomos usados como massa de manobra, nós viemos aqui para encobrir essa outra manifestação", revoltava-se um perueiro, que pediu para não ser identificado. "Nunca votei no Maluf, nem no Pitta nem no PPB porque eu sei que é disso que eles são capazes". A assessoria de Imprensa do prefeito nega o envolvimento dele na manifestação e classificou as acusações de "absolutamente inverídicas" e de "fofoca".
Câmara - No total, cerca de 400 pessoas participaram das manifestações feitas hoje em frente da Câmara. Além da Força Sindical, Juventude Popular Socialista e representantes das igrejas católica, evangélica e da doutrina espírita, vieram representantes do grupo de apoio à Força-Tarefa - liderados pelo camelô José Afonso da Silva e pela comerciante Soraia Patrícia da Silva - e até um pequeno grupo da zona leste que apoia o prefeito.
Vestido de "morosidade", o empresário de moda Celso Cesario pedia o fechamento da Casa. "Se eles não são capazes de trabalhar para a gente, então vamos lacrar isso aí". O copeiro desempregado Sebastião José da Silva disse que estava lá por estar indiganado com a falta de investigação da corrupção. "E não vou ficar satisfeito enquanto não aprovarem a CPI e limparem essa Câmara".

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