Manifestação contra Milosevic reúne 10.000
Belgrado, 29 (AE-AP) - Mais de 10.000 pessoas participaram nesta terça-feira (29) de uma manifestação de protesto contra o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, pedindo a renúncia dele e a convocação imediata de eleições gerais livres e democráticas.
Organizado por uma frente de partidos de oposição denominada Aliança por Mudanças, o ato público contra o governo - o primeiro desde início dos bombardeios do país pela aviação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 24 de março - ocorreu em Cacak, 150 quilômetros ao sul da capital iugoslava.
Embora administrada por um prefeito pró-ocidental, Velimir Ilic, essa cidade foi um dos principais alvos dos ataques da Otan.
O único incidente registrado foi uma explosão no local da concentração (antes de seu início), que não deixou feridos e não causou pânico nem danos. Na periferia da cidade, no entanto, a polícia, leal a Belgrado, impediu o acesso de caravanas de ônibus vindas da capital iugoslava para participar da manifestação.
Vladan Batic, líder do Partido Democrata Cristão (PDC) e coordenador da frente oposicionista, abriu uma série de discursos, responsabilizando Milosevic pela "gravíssima situação" dos sérvios. "Ele pôs o mundo contra nós e envergonhou a gente", destacou. "Um milhão de desempregados, 1 milhão de refugiados e 1 milhão de fugitivos (que abandonaram a Sérvia). Viramos um lixão. Esse é o resultado da política de Milosevic."
Em um desdobramento incomum mas significante, uma unidade do exército iugoslavo ofereceu ônibus para ajudar no transporte de manifestantes oposicionistas a partir da cidade sérvia de Kragujevac. As notícias da ajuda do exército provocaram aplausos ensurdecedores nas manifestações.
A Aliança para Mudanças é integradada pelo PDC, Partido Democrata (PD), União Cívica (GSS) e Partido Social-Democrata (PSD). Batic pediu a liberalização dos meios de comunicação (controlados por Belgrado) e um governo de salvação nacional, que organize eleições livres e democráticas.
O Movimento de Renovação Sérvio (SPO), do dirigente liberal Vuk Draskovic, não aderiu às manifestações. Segundo Draskovic, os protestos foram organizados por políticos que fugiram do país durante os bombardeios. Ele se referia a Zoran Djindjic, líder do PD, e ao ex-general Vuk Obradovic. Convocado para servir no Exército, Djindjic refugiou-se em Montenegro, onde já estava Obradovic.
Eles também discursaram, repetindo as acusações e exigências do coordenador da Aliança para Mudanças. Considerado inexpressivo por Belgrado (Milosevic ainda é, segundo pesquisas, a personalidade política de maior expressão no país), o grupo oposicionista conta com um forte aliado: a Igreja Ortodoxa sérvia, que se está aproximando a cada dia mais da Otan.
Simultaneamente ao ato público de Cacak, Milosevic lançava em Belgrado um programa de reconstrução do país, com prioridade para o setor habitacional. "Vamos reerguer todas as casas destruídas pelo bombardeio até novembro", prometeu ele. "Vamos igualmente restabelecer os vínculos econômicos e culturais com todos os países, especialmente os progressistas e democráticos, e adotar um sistema aberto de economia de mercado."
Segundo especialistas em economia, o presidente iugoslavo não terá condições de cumprir as metas anunciadas sem uma substancial linha de crédito internacional - o que a Iugoslávia não terá enquanto ele estiver no poder.
A secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright reiterou que os governos ocidentais não vão dar um tostão para Milosevic administrar. Ela se negou, no entanto, a fazer uma previsão sobre a queda do regime iugoslavo. "Minha experiência ensinou-se que, no caso de Kosovo, não há calendário."
Em Pequim, o porta-voz da chancelaria chinesa, Zhang Qiyue, desmentiu rumores de que Milosevic, indiciado por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, já teria obtido das autoridades chinesas uma promessa de asilo. "Não há fundamento nisso."
Em Pec (Kosovo), o patriarca ortodoxo Pavle recebeu hoje o príncipe Alejando Karageorgevic, herdeiro da coroa iugoslava. Apoiado pelo clero ortodoxo, ele defendeu um governo de união nacional (sem Milosevic) e definiu a monarquia como melhor sistema para pacificar o país.
Em Pristina, o comando das forças de paz (Kfor) deu por concluída a primeira fase do desarmamento do Exército de Libertação de Kosovo.





