Maluf diz que Pitta traiu o seu voto
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quinta-feira, 22 de abril de 1999
Por Flávio Mello 
São Paulo, 23 (AE) - O presidente nacional do PPB e ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, disse hoje que o seu afilhado político e prefeito Celso Pitta (sem partido) traiu o seu "voto" e "os votos que recebeu". Com isso, a briga entre Maluf e Pitta, que começou veladamente em 1998, atingiu o seu ápice e ratifica definitivamente o rompimento político entre ambos.
A afirmação foi feita por meio de nota oficial, em resposta ao comunicado divulgado ontem pelo prefeito. Pitta acusou Maluf de insistir na tese do impeachment para acabar com as investigações e inocentar culpados pelas irregularidades. Um dia antes, o ex-prefeito de São Paulo afirmara que faltou pulso firme ao seu sucessor para combater a corrupção.
Traidor - Na nota oficial, Maluf deixa claro estar arrependido por ter escolhido Celso Pitta como seu sucessor. "A cidade, com meu voto, deu ao senhor Celso Pitta a oportunidade de melhorar a vida do paulistano. Em vez de fazer isso, ele investe seu tempo me agredindo, quando deveria bem administrar a cidade, pois foi para isso que os paulistanos o elegeram. Na verdade, ele é traidor dos votos que recebeu, até porque sozinho ele não teria voto nenhum", escreveu.
"Lamento e peço desculpas à população de São Paulo, porque o Celso Pitta que recomendei era outro...Depois de empossado, ele mudou", completou, concluindo o rompimento.
Estratégia - Esse rompimento é uma estratégia com a qual Maluf pretende dissociar a sua imagem da atual administração municipal. Além disso, demonstra estar preocupado em não ser atingido pelas denúncias sobre os esquemas de corrupção envolvendo a máquina administrativa da Prefeitura.
Nas últimas entrevistas, o ex-prefeito tem repetido de forma contumaz que tomou medidas contra todas irregularidades denunciadas. A estratégia foi definida ainda no ano passado, quando os publicitários Nélson Biondi e Duda Mendonça convenceram Maluf a admitir no programa eleitoral que o seu afilhado político não estava fazendo um bom trabalho.
A decisão foi tomada para neutralizar a afirmação feita por Maluf na campanha de 1996: "Se o Pitta não for um bom prefeito, nunca mais vote em mim". Pitta não gostou, mas evitou o confronto. A mulher de Pitta e primeira-dama de São Paulo, Nicéa, brigou com Mendonça.
A reação foi velada. Pitta decidiu não renovar o contrato publicitário com Biondi e Mendonça, a quem acusou de nunca ter contribuído com a estratégia de comunicação da Prefeitura.
A ação contra Maluf começou logo depois de Maluf perder a eleição para o Governo do Estado. Ele deixou claro que iria distanciar-se de seu padrinho.
"Desmalufização" - Nos últimos meses de 1998, Pitta exonerou praticamente todos os secretários municipais indicados por Maluf, entre eles Reynaldo de Barros (Vias Públicas e Serviços e Obras) e Edevaldo Alves da Silva (Governo Municipal). Essas mudanças marcaram o início do distanciamento político com o ex-prefeito, derrotado nas urnas por Mário Covas (PSDB).
A nova fase do governo foi classificada como o "ano da libertação" por Nicéa, que revelou sem a menor cerimônia ter votado em Covas no segundo turno das eleições do ano passado. O processo evoluiu e terminou em março, quando Pitta rompeu com Maluf e deixou o PPB.
A decisão foi anunciada um dia depois de o ex-prefeito de São Paulo afirmar "não ter nada a ver com a atual administração municipal". O ex-prefeito atacou diretamente o governo de seu sucessor ao comparar o número de multas que foram aplicadas às empresas do setor de limpeza pública em seu último ano de governo com as infrações registradas no primeiro ano gestão de Pitta.
Depois de sair do PPB, Pitta afirmou que esse rompimento o ajudaria a ampliar a sua base de apoio. Em outras palavras, o prefeito aposta que, ao romper com Maluf e o PPB, partidos de centro-esquerda poderão ajudarão a compensar a eventual perda de aliados políticos.
"Papel de vítima" - Antes de Maluf divulgar a nota oficial, Pitta havia afirmado que o "papel de vítima" não cai bem para o seu antecessor. Ele evitou declarações que responsabilizassem o padrinho político pela corrupção na administração municipal.
"Vários problemas que estamos administrando hoje não são dessa administração; são históricos." Ao ser questionado de que forma Maluf seria responsável pelos problemas herdados, ele respondeu que o teor da nota que divulgou anteontem "fala por si".
Pitta foi procurado hoje à tarde para comentar as declarações de Maluf, mas a sua Assessoria de Imprensa informou que ele não faria comentários. Pitta disse, por meio da sua Assessoria de Imprensa, estar ocupado com a administração da cidade. Dessa forma, não teve tempo para analisar o assunto e poderá pronunciar-se hoje, se for o caso.


