Malan remove Carvalho mas não faz sucessor
Brasília, 06 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, conseguiu remover o colega Clóvis Carvalho do cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, mas não fez o sucessor. O escolhido, Alcides Tápias, é da cota pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso, que rejeitou sugestões de Malan e do presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga Neto, para nomear um acadêmico.
Segundo assessores do Palácio do Planalto, a opção de Fernando Henrique deixa claro que ele quer um ministro que não cause desgastes ao ministro da Fazenda, mas que mantenha autonomia em relação à equipe econômica. "A expectativa é de que Tápias brigue pelo desenvolvimento, com sua experiência na área privada, mas não seja partidário de nenhum grupo de dentro do governo", disse um assessor do presidente.
Malan foi o intermediário do convite a Tápias e ouvido previamente por Fernando Henrique sobre a opção. "O Malan aceitou, mas não foi ele quem sugeriu o nome", afirmou outro colaborador do Palácio do Planalto.
O ministro da Fazenda defendeu uma opção acadêmica para o cargo, indicando o dois professores da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Dionísio Carneiro e Marcelo Paiva Abreu. Se essa fosse a opção do presidente, estaria repetindo-se a experiência da atuação de Malan e o ex-ministro do Desenvolvimento Celso Lafer, que manteve fidelidade e submissão ao ministro da Fazenda nos quatro meses em que permaneceu no posto.
Fernando Henrique não acolheu a sugestão, segundo um interlocutor de dentro do Palácio, para deixar claro que o novo ministro não será um Lafer e que, apesar de ter tirado o amigo e colaborador Carvalho do ministério, "não está disposto e entregar o governo para Malan", de acordo com expressão usada por esse interlocutor.
Quando sondado para o cargo, Tápias quis saber se teria autonomia na função, ou se teria de se submeter à equipe econômica.
Ouviu uma consistente afirmação de independência e decidiu enfrentar o desafio. "O Tápias não é homem de se submeter", disse um empresário paulista.
O nome de Tápias havia sido cogitado para o governo Fernando Henrique por ocasião da formação da equipe do segundo mandato. Ele alegou impedimentos pessoais e declinou do convite, antes que este fosse formalizado por Fernando Henrique.
A opção Tápias é mais uma tentativa de dar dinâmica ao projeto de desenvolvimento, sob a condução de um profissional com visão empresarial privada. Essa visão vai se contrapor às duas correntes que disputam influência sobre o presidente por um projeto de governo: o grupo tucano (ministros da Saúde, José Serra, da Educação, Paulo Renato Souza, e das Comunicações, Pimenta da Veiga), favorável ao crescimento mais acelerado, induzido pelo governo com políticas setoriais; e o grupo de Malan, abertamente defensor da liberdade do mercado.
"A dialética não está vencida com a vinda de Tápias", observa um membro do grupo desenvolvimentista.
Tápias defendeu o ajuste fiscal por considerar o desequilíbrio das contas públicas a maior vulnerabilidade da economia brasileira. Mas recomendou que o período de sacrifícios não se estenda por muito tempo, sob pena de tornar inviável politicamente o esforço. O ajuste, na opinião dele, deve servir para colocar o País no rumo do crescimento econômico e do desenvolvimento social.
Tal discurso, defendido durante a premiação com o título de administrador emérito do Conselho Reginal de Administração de São Paulo, é o mesmo sustentado por Carvalho, sem os adjetivos pesados que usou. Ou mesmo por Serra, membro destacado do grupo tucano que defende a aceleração do crescimento econômico. Nem Carvalho nem Serra podem ser chamados de inimigos do ajuste fiscal.
O Palácio do Planalto procurava hoje sinalizar que, com Tápias, fica enterrada a discussão entre monetarismo e desenvolvimentismo. Nenhum dos políticos ou economistas ouvidos, no entanto, confirmaram essa expectativa. Para eles, não importa que nome se dê - a discussão vai permanecer porque a pressão por mais emprego vem da sociedade e repercute diretamente dentro dos partidos da aliança que dá sustentação ao governo.





