Malan e Fraga tentam convencer bancos a voltar ao Brasil
Frankfurt, 10 (AE) - Amparados por fortes declarações do Fundo Monetário Internacional, do Tesouro dos Estados Unidos e do Grupo dos Sete sobre a importância crucial da participação dos bancos internacionais para o sucesso da operação de restauração a confiança internacional na economia brasileira, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, iniciam amanhã a segunda campanha do governo em menos de quatro meses para tentar convencer os bancos comerciais a abrir novamente seus cofres ao País.
Malan reúne-se amanhã cedo com cerca de vinte altos executivos dos mais importantes bancos alemães no Hotel Steigenberger Frankfurter Hof, o mesmo no qual fez uma apresentação, em novembro passado, sobre o primeiro programa econômico negociado com o FMI, durante a qual assegurou que o governo completaria o ajuste fiscal e não mudaria o regime de bandas cambiais e pediu-lhe para manter suas linhas de crédito ao País. A exemplo de credores de outros países, os banqueiros alemães responderam fazendo exatamente o oposto. Em contraste com o encontro de novembro, desta vez a reunião será a portas fechadas. O ministro da Fazenda deverá estar também com o presidente do BC alemão, Hans Tietmeyer.
Armínio Fraga tem reunião amanhã com os banqueiros em Nova York, onde ganhou amplo trânsito e o respeito de Wall Street durante os seis anos em que trabalhou como um dos principais estrategistas do Soros Management Fund, o maior fundo de investimentos privados do mundo. Na sexta-feira Malan e Armínio repetirão a dose em Paris e Londres, respectivamente. Eles continuarão a campanha pelo retorno dos créditos privados com banqueiros e investidores em várias reuniões paralelas à assembléia anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que começa este fim de semana na capital francesa.
"O ministro encontrará uma audiência crítica mas com mente aberta", disse hoje Peter Hans Ludescher, o principal executivo do Deutsche Bank para a América Latina, que ajudou a organizar a reunião de amanhã com os banqueiros alemães. "Os bancos da Alemanha têm uma visão de longo prazo em relação ao Brasil e o que querem ouvir são os detalhes do novo arranjo com o FMI e outras informações necessárias para permitir-lhes tomar as decisões para continuar engajados no Brasil". Jurgen Wohler, vice-presidente executivo do Sudwesteutsche Landesbank, de Stuttgart, disse que os bancos alemães continuarão a financiar as empresas alemãs e teuto-brasileira no País. Mas acrescentou que a recessão que virá em consequência da política de ajuste "reduzirá a demanda por crédito".
A segunda tentativa do governo para convencer os bancos a restaurar linhas de crédito começa apenas dias depois da divulgação de um relatório do Banco Internacional de Compensações (BIS, na sigla em inglês). O documento mostra que, entre junho e setembro do ano passado, antes portanto do momento mais agudo da crise, os bancos internacionais já tinham reduzido em US$ 8 bilhões seus empréstimos no Brasil - US$ de US$ 110 bilhões para US$ 102 bilhões.
O economista-chefe do banco de investimentos ING Barings
Arturo Porzecanksi, disse que a redução de US$ 8 bilhões correspondente a empréstimos de curto prazo dão uma idéia da magnitude da retração de crédito que atingiu o Brasil entre outubro e fevereiro. "Se saíram US$ 8 bilhões entre junho e setembro, devem ter pelo menos US$ 20 bilhões", calculou ele. A volta de pelo menos uma parte desses créditos é fundamental para que o Brasil possa realizar uma das premissas básicas do novo programa econômico, ou seja, o saldo comercial de US$ 11 bilhões este ano previsto no acordo com o FMI.
Ludescher, que retornou há dias da Argentina, onde acompanhou o presidente da Alemanha, Roman Herzog, disse que a visita deixou clara a importância do retorno dos créditos comerciais ao Brasil para os executivos de bancos que acompanharam o chefe de estado alemão. "A esperada invasão de produtos brasileiros baratos no mercado argentino depois da desvalorização do real não aconteceu porque não há crédito para a exportação", disse ele.
Ludescher acha que a missão de Malan é delicada e que os banqueiros pedirão ao ministro "informações convincentes que mostrem que o programa econômico negociado com o FMI é factível". O ceticismo sobre a viabilidade do programa foi amplificado hoje pelo colunista Martin Wolf, do jornal Financial Times. Wolf acusou o FMI de estar "receitando masoquismo ao Brasil" ao insistir numa política de juros altos que está na raiz do problema que mal pretende resolver, ou seja, o déficit público. "As taxas de juros altas são em si mesmas a principal causa da perda de confiança na estabilidade monetária interna que se espera agora que elas curem", escreveu Wolf. "Pior, se o impacto das altas taxas de juros na economia for ruim o suficiente, mesmo o saldo primário do orçamento público pode desaparecer... e (criar) um ciclo vicioso, (no qual) o Brasil estará tentando restaurar a confiança com políticas que parecem fadadas a mina-la".
O Dresdner Bank Lateinamerika AG reflete essa preocupação em sua mais recente análise sobre a crise brasileira. "O que causa nervosismo no mercado é, agora, antes de tudo, a subida dos juros domésticos", afirma o Dresdner."Cada ponto percentual de ascensão dos juros representa uma elevação do déficit público da ordem de 0,25% do PIB.
Somente a baixa dos juros ao nível vigente antes da crise possibilitaria a observância da meta fiscal para este ano, lançando o fundamento para uma estabilização duradoura da economia brasileira".
Embora outros bancos também incluam avaliações como esta em seus cálculos e reconheçam a fragilidade da situação, Ludescher disse que considera razoáveis as chances de os bancos responderam de forma positiva às explicações de Malan e Armínio. O argumento que o ministro da Fazenda e o presidente do BC apresentarão aos credores é que a restauração das linhas de crédito ajudará a baixar os juros e evitar a armadilha para qual o Dresdner chama atenção. O fato de eles trazerem a maior parte da promessa de ajuste fiscal já cumprida certamente ajudará, acredita Ludescher. "Os bancos sabem que estão todos no mesmo barco e querem ver a crise brasileira superada, pois ela não interessa a ninguém".
De acordo com o executivo do Deutsche, o fato de Malan voltar a Frankfurt para apresentar um programa econômico ainda mais duro do que o que anunciou na visita de novembro - e que o País não honrou a tempo - e com uma nova política cambial não deve influir no resultado da reunião e pode até ter um impacto positivo. "Acho que a posição dos bancos é pragmática, pois todos sabem que não adianta chorar sobre o leite derramado", disse ele. "Ninguém acreditava no regime cambial anterior e o que aconteceu era, de certa forma, esperado", reforçou Wohler. "Bancos são instituições práticas, que olham para a frente", acrescentou. "O real está ganhando valor e a desvalorização de 25% a 30% que deve se confirmar no momento em que a moeda estabilizar, estava no preço".
Para Ludescher, o retorno do ministro da Fazenda à capital financeira da Alemanha será bem vista pelos bancos se marcar o início de uma política mais ativa do Brasil de diálogo com eles. "A percepção aqui na Alemanha é que o diálogo do Brasil tem sido mais com a área oficial - o FMI e Tesouro - e que o governo tem sido menos ativo do que deveria na busca do apoio dos bancos", disse ele. A declaração é um eco de uma crítica reiterada nas últimas semanas pelo Instituto de Finanças Internacionais, o lobby das grandes empresas financeiras, em Washington, sobre a tendência do setor oficial internacional a manter os bancos fora da discussão das soluções crises e exigir, depois, sua participação.
Para Porzecanksi, a participação forçada dos bancos no financiamento do Brasil é um desfecho inevitável se eles não responderem ao pedido do governo brasileiro e da comunidade financeira oficial para restabelecer as linhas de crédito voluntariamente. "Chegou o momento de os bancos comerciais tomarem uma decisão", disse o economista, que foi um dos críticos mais consistentes do real no regime cambial anterior e faz hoje os prognósticos mais otimistas de Wall Street sobre a economia brasileira, se o País for capaz de executar o programa que negociou com o FMI - para o que precisa dos bancos.
"Ou os bancos põe US$ 10 bilhões agora voluntariamente ou serão forçados a colocar todos os mais de US$ 20 bilhões que tiraram, num esquema involuntário, como os que o (vice-presidente do Citibank) Bill Rhodes coordenou na década de 80", disse ele. "As conversas em Washington são no sentido de levar os bancos a restaurar as linhas ao Brasil ao nível de junho do ano passado", disse o economista, que mantém contato estreito com o governo americano e os organismos financeiros internacionais sediados na capital americana.





