Brasília, 26 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, ex-aluno de colégio jesuíta e de universidade católica, saiu hoje da sede da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com a recomendação de relembrar o Pai-Nosso, principalmente no trecho que diz: "o pão nosso de cada dia, dai-nos hoje". Foi com esse conselho, dado pelo presidente da entidade, dom Jaime Chemello, que encerrou-se o debate do ministro com os bispos e com entidades representativas da sociedade, como a Central Única do Trabalhador (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem-terra (MST).
Foi uma discussão em tom diplomático, mas onde não faltaram farpas de nenhum dos lados. O ministro atacou as tentativas de levar o debate sobre a pobreza para o campo político-partidário e chegou a falar aos bispos em controle de natalidade - mais precisamente, no combate à gravidez precoce - como uma forma de evitar o que chama de "perenização" da pobreza. Em troca, ouviu cobranças de ações mais fortes e imediatas para combater a miséria.
O momento mais tenso da reunião foi após a intervenção do representante da CUT, o sindicalista Antônio Carlos Spys, que afirmou haver no Brasil 60 milhões de desempregados e excluídos. Malan respondeu lembrando que o País vive numa democracia e, nas últimas eleições, o presidente Fernando Henrique Cardoso teve 15 milhões de votos de vantagem sobre o segundo colocado. "Se há essa quantidade de descontentes, em 2002, quando houver uma nova eleição, eles se expressarão pelas urnas", afirmou. A dureza da frase chocou os presentes e levantou murmúrios na platéia. "Perdão se ofendi alguém; eu estava só explicando como funciona a democracia: com votos, e não com campanhas do tipo fora, fulano", insistiu o ministro.
Malan sugeriu, como primeiro passo de um programa para acabar com a pobreza e a miséria, acabar com o discurso fácil. "Eu poderia falar contra a fome, a pobreza, a miséria, a impunidade; é um discurso fácil, porque todo mundo é contra", disse o ministro. "O passo delicado - e aí está o problema da partidarização - é cobrar do governo federal por não ter resolvido todo esses problemas num único mandato." Em seguida, sugeriu o ministro, deveriam ser estabelecidas metas plausíveis para dois, quatro, seis anos e detectar as medidas objetivas para atingi-las. Ele defendeu, ainda, que o combate à pobreza não é tarefa apenas para o governo federal.
Ao final do debate, Malan ganhou de dom Jaime Chemello um livro sobre a campanha da fraternidade deste ano: um milênio sem exclusão. Ele mostra como diversas igrejas dialogaram entre si e encontraram idéias comuns sobre como tratar da questão da dignidade humana. "Quero passar-lhe o texto para que o senhor medite sobre isso", disse Chemello. Ele pediu, ainda, que Malan
como ex-aluno de colégio jesuíta, lembrasse com mais frequência do Pai-Nosso. "Quantas vezes seu parecer será decisivo para que o pão de cada dia seja dado hoje ou no futuro", disse o presidente da CNBB.
Numa rápida entrevista, ao final do debate, dom Jaime Chemello foi questionado sobre que penitência daria ao ministro. "A penitência pressupõe algumas condições", explicou ele. "Primeiro, é preciso haver confissão do pecado; depois, verificamos se há arrependimento no coração e só então damos uma penitência, para corrigir os erros do passado."

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