São Paulo, 20 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, criticou hoje os movimentos que estão questionando a legitimidade do governo de Fernando Henrique Cardoso. Em uma clara referência à marcha dos 100 mil, o ministro fez coro às lideranças do PSDB e disse que é golpismo pensar em derrubar o governo. "É golpismo a idéia de que é possível, através de manifestações de massa, de assaltos ao palácio de inverno, derrubar um governo legitimamente constituído, principalmente quando esse movimento não indica com clareza seu propósito, a não ser dizer fora fulano, como se esse fulano não tivesse sido eleito legitimamente", afirmou Malan, em discurso durante almoço em seminário promovido pelo grupo IOB.
Malan disse que esses movimentos dos "sem rumo, sem propósito" deveriam ter paciência para esperar "seu turno" e não tentar inviabilizar o governo. O ministro disse que esses tipos de movimento andam na linha tênue onde o desejo de que o governo vá mal acaba se transformando no "desejo de que o País vá mal". Ele separou estas manifestações do comportamento do Congresso. "Não compartilho as críticas de que no Congresso as coisas não caminham como deveriam", disse Malan. Lembrando que em 1995 o Congresso aprovou em seis meses as alterações constituicionais do capítulo da Ordem Econômica, Malan afirmou ter certeza de que "o Congresso não faltará ao País como não faltou até hoje".
Depois, citando o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e também o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), Malan disse que tem recebido de ambos a confirmação do apoio do Congresso às medidas necessárias para que o governo faça o ajuste fiscal e equilibre as contas públicas.
Ontem (19), o líder do PSDB na Câmara, Aécio Neves (MG), garantiu ter informações preocupantes sobre a marcha, que classificou como um "golpismo", e disse que o partido responderia "com a força" caso houvesse violência.
Mas o chefe do Gabinete Militar, general Alberto Cardoso, descartou a possibilidade de que a Marcha dos Cem Mil possa descambar para a violência. "Não há indícios de que vá haver violência", disse ele hoje, ao participar da solenidade de comemoração dos 50 anos da Escola Superior de Guerra (ESG), no Rio.
O general disse, porém, não ter idéia das informações que o deputado possui. "As informações que eu tenho me foram dadas pelos organizadores", afirmou. Ele contou que se reuniu com os deputados José Dirceu (PT-SP), Vivaldo Barbosa (PDT-RJ) e Aldo Rebello (PCdoB-SP), que coordenam a marcha. "Eles me garantiram que a manifestação terá um caráter pacífico e vão apenas apresentar suas reivindicações."
Qualquer problema que venha a acontecer na manifestação, para o general, é da alçada da Secretaria de Segurança do Distrito Federal. "Se houver violência, o que eu não creio, será um problema de segurança pública a ser resolvido pela polícia do Distrito Federal, que é uma boa polícia", afirmou. O comandante da Marinha, almirante Sérgio Chagasteles, não quis comentar as declarações de Aécio. "Foi o pronunciamento de um deputado e nada tenho a dizer sobre isso."
Para o governador tucano Mário Covas, o governo Fernando Henrique vive hoje um de seus momentos mais delicados. Segundo Covas, as dificuldades de negociação com os partidos da base aliada poderiam abrir espaço para "uma série de movimentos reivindicatórios e de natureza social" de difícil administração. No entanto, disse não acreditar que os últimos acontecimentos - como o projeto que renegocia a dívida dos ruralistas - possam configurar uma crise de governabilidade ou ameaça à estabilidade do governo federal. "Este risco não existe", disse hoje, em São Paulo. "Faz parte da vida pública de todo governante este tipo de acontecimento; todo mundo enfrenta desafios."

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