Brasília, 01 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse em jantar com 23 senadores, ontem (31), que deixará o cargo se tiver que adotar medidas que comprometam a manutenção da estabilidade. "Se me disserem para fazer uma bolha econômica por dois ou três anos para desenvolver o País não contem comigo", afirmou o ministro durante jantar na casa do presidente da Comissão de Assuntos Econômico (CAE), senador Ney Suassuna (PMDB-PB). De acordo com os senadores, o ministro insistiu em um programa econômico consistente, mesmo que tenha que recorrer a medidas impopulares. "Nós sabemos o que ocorre quando se procura um crescimento apressado", argumentou Malan. "Aí, se quiserem isso, é com o fazedor de bolhas, não comigo."
Apesar de se considerar um crítico do programa econômico do governo, o senador Roberto Saturnino (PSB-RJ), elogiou a colocação do ministro. "Gostei dele", afirmou. "É um homem admirável pela sua honradez e firmeza." Para Saturnino, o recado de Malan teve um rumo certo: "Ele quis dar um aviso aos chamados desenvolvimentista do PSDB", disse. O senador Jefferson Péres (PDT-AM), também do bloco da oposição, concordou com a posição do ministro da Fazenda, embora reclame a adoção de uma política compensatória para diminuir as dificuldades da população carente.
Péres saiu do jantar convencido de que tanto Pedro Malan como o presidente do Banco Central ,Armínio Fraga, também presente, deixarão o governo "se forem compelidos a everedarem por um desenvolvimento falacioso, antes do ajuste fiscal". O senador oposicionista se disse preocupado diante dessa perspectiva. "Se eles saírem, não sei como será o day after, porque com eles (Malan e Fraga) não haverá crescimento fácil e inconsistente", justificou. Ele disse que é contra a falta de política pública do governo, mas que apoia integralmente as metas macroeconômicas que estão em andamento.
O anfitrião Ney Suassuna disse no jantar - mais um entre os vários que tem realizado para aproximar senadores de autoridades do governo - que o tom da conversa seria de total franqueza. E foi o que ocorreu, de acordo com o senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE). Convidado principal, Malan levou à casa do senador Armínio Fraga, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Andrea Calabi, e o secretário de Política Econômica, Edward Amadeo. O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, também estava presente.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) disse ao ministro que não concorda com ele. Suplicy explicou que entende ser possível adotar instrumentos que ajudem o País a se desenvolver, sem ignorar a estabilidade de preços, o equilíbrio das contas externas e a erradicação da miséria. "Tenho certeza que ficou alguma coisa desse jantar para o ministro pensar", afirmou.
O senador Ramez Tebet (PMDB-MS) cobrou de Malan medidas para socorrer o setor produtivo do País, a exemplo do que foi feito para socorrer o setor financeiro. Tebet fez um relato dramático de situações que tem visto em seu Estado, provocadas sobretudo pelo fechamento do mercado de trabalho. "Acho que está faltando vivência ao governo", defendeu. "Eles não estão vendo a realidade social do Brasil". Já o senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE) entendeu que o ministro deixou claro que não é insensível à situação da população. "Ele sabe o que está acontecendo com o povo", frisou.
O líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF)
e outros senadores chamaram a atenção para o fato de Malan ter destacado os setores do País que estão em evolução, como o da educação. Dizendo que falava pessoalmente e não como o ministro, Pedro Malan também condenou a tentativa da oposição de tirar Fernando Henrique do governo. Ele contou aos senadores que ao longo de sua vida assistiu a vários tipos de manifestações, em diversos países, mas que nenhumá delas foi tão antidemocrática a ponto de pedir a saída de um presidente eleito.

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