Malan considera normal lucro de bancos apontado por Mercadante
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quarta-feira, 05 de maio de 1999
Por Lu Aiko Otta 
Brasília, 06 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, considerou "normal" o fato de 62 bancos terem registrado ganhos com a mudança na política cambial. Em entrevista à rádio CBN, Malan comentou o levantamento feito pelo deputado Aloízio Mercadante (PT-SP) e apresentado ontem (05) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos. Ele disse que o próprio Banco Central havia enviado à CPI dados mostrando que 62 bancos ganharam, enquanto 50 tiveram perdas. "É impossível depreender daí a existência de informações privilegiadas, como se fosse uma consequência lógica - que é o passo político que o deputado gostaria de dar, e acho que é muito difícil fazê-lo."
O ministro disse que vê com interesse o trabalho da CPI, tanto na sua vertente investigativa quanto na etapa posterior, quando deverão ser apresentadas sugestões para aprimorar o funcionamento do sistema financeiro. Ele reafirmou, ainda, que irá à CPI se convocado, e riu quando lhe foi perguntado se o governo estaria articulando para evitar sua convocação. "Acho um tanto quanto surrealista essa discussão, porque desde o início, no primeiro momento, eu disse que, se convocado, não teria qualquer problema - aliás, seria meu dever, não teria escolha - de comparecer à comissão."
O levantamento feito por Mercadante, segundo comentou Malan, mostrou que 62 bancos tinham posição comprada na véspera da flutuação cambial, enquanto 50 estavam na outra ponta, em posição vendida. "Isso, convenhamos, não é uma informação de enorme novidade", disse o ministro. De acordo com ele, informações enviadas pelo Banco Central à CPI mostram que sempre existem comprados e vendidos no mercado. "É difícil imaginar que, dos 62 que tinham posição comprada, todos tinham ou tiveram informações privilegiadas que outros 50 não tiveram", afirmou.
Segundo Malan, os dados enviados pelo Banco Central à CPI mostram que mudanças significativas de posição em câmbio, algumas de valores ainda mais elevados, ocorreram em diversas outras ocasiões de nervosismo no mercado. Elas aconteceram no final de 94, quando houve a crise no México, em março de 95, quando o então presidente do Banco Central, Pérsio Arida, foi substituído por Gustavo Loyola, por ocasião da demissão do ministro da Economia argentino, Domingo Cavallo, na crise asiática em 97 e na crise russa em 98.
"Em quase todas essas ocasiões, essas mudanças - algumas delas foram muito mais significativas do que agora - as pessoas que apostaram em uma desvalorização do real perderam dinheiro, e o Banco Central ganhou dinheiro", disse o ministro. "Não me ocorre que alguém tenha dito, naquelas ocasiões, que aqueles que fizeram essa mudança e apostaram contra o real tivessem tido acesso a informação privilegiada; eles o fizeram porque analisaram a situação e decidiram tomar posturas defensivas para se precaver dessa eventualidade."
Para o ministro, a CPI dos bancos tem duas vertentes: uma investigativa e outra propositiva. Nessa segunda fase, os senadores poderão propor mudanças na legislação "que permitam evitar no futuro certo tipo de eventos que a CPI tenha chegado à conclusão que podem ser minimizados ou que sua ocorrência pode ser reduzida no futuro", segundo Malan. "A nós interessa também a transparência, em particular a fase construtiva e propositiva da CPI que, temos certeza, chegaremos a ela."
O ministro admitiu que a saída do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco foi interpretada como indício de mudança na política cambial. E reconheceu, também, que houve pressões de "participantes da cena nacional" pela saída de Franco. "Esse é um fato público, era notório, inclusive as movimentações de natureza política que se viam nessa direção", comentou Malan.
O ministro disse que o mercado interpretou a saída de Franco como uma mudança na política cambial. "Mudanças de política cambial são eventos problemáticos em qualquer lugar do mundo e principalmente quando acopladas, simultaneamente, com mudanças na presidência do Banco Central", disse o ministro. "Mas eu me reservo o direito de não entrar em detalhe sobre decisões presidenciais."


