Maquiar, ensina o Aurélio, quer dizer aplicar cosméticos para disfarçar ou mascarar. Pode ser com batom, base, pó-de-arroz, ruge, sombra, rímel e outros produtos. Ajuda a embelezar, é claro. Para realçar, também. Mas usar tudo isso para manobrar estatísticas é novidade.

Aconteceu em São Paulo: o Sindicato dos Delegados de Polícia acusa a Secretaria da Segurança Pública de fazer registros em boletins de ocorrências policiais de modo a encobrir os reais índices de criminalidade. Artifícios conjugando tipificações legais com alquimias semânticas. A polícia teria se transformado num gigantesco salão de beleza. Veja como e por exemplo: um roubo à mão armada, o popular assalto, vira uma mais suave ''averiguação sobre roubo''. Idem no caso de furtos. Os assassinatos podem ser contados a partir de um registro inicial como ''lesão corporal de natureza grave'' - principalmente quando, para todos os efeitos, a vítima morre a caminho de um hospital ou dentro de um pronto-socorro. Diante de vários casos concretos, a Secretaria da Segurança admitiu que pode ter havido algum engano, fruto da inexperiência de alguns delegados, como se bacharel em direito não soubesse distinguir fato concreto de firula. Ficou manifesta a vontade política de dourar a pílula, usar óculos com lentes cor-de-rosa e papel celofane nos pacotes. Técnicas de make-up. Cuidado, muito cuidado: essa moda pega. Ou melhor: já está pegando.

Vivemos tempos em que se pretendemos mesmo mudar alguma coisa as verdades não podem ser mais camufladas. Ainda São Paulo: diante das enchentes fruto de jogo de empurra entre prefeitura e governo do Estado, somando-se a falta de educação dos cidadãos ao lançar lixo em córregos, rios e vias públicas, feitiço que acaba se virando contra o feiticeiro, o Executivo Municipal anunciou a adoção de uma medida fantástica: frente ao perigo em áreas críticas, com inundações iminentes, os moradores desses lugares ouvirão o barulho de uma sirene. Dessas usadas em ambulâncias ou carros de polícia. Assim, acredita a prefeitura, todos terão tempo para escapar a tempo. Quer dizer: as inundações continuarão acontecendo. Mas as sirenes vão tocar antes. Parece brincadeira. Mas, infelizmente, é pura verdade.

É assim que estamos no País da maquiagem. Vale de tudo: deputado arremessando a Constituição sobre a Mesa da Câmara dos Deputados, mostrando indignação durante debate sobre eventuais alterações na Consolidação das Leis do Trabalho; a cantora mexicana Gloria Trevi, que em seu País tem prisão decretada por corrupção de menores, engravidando misteriosamente numa sala da Polícia Federal no Distrito Policial, dizendo ter sido violentada mas omitindo a identidade do estuprador, enquanto um assaltante perigoso assumia a paternidade e o ministro José Gregori se preparava para dar uma entrevista coletiva, cancelada a tempo pelo Palácio do Planalto, defendendo a tese de inseminação artificial com o uso de uma caneta esferográfica... Exemplos de como se maquia uma carta de intenções com a brutal realidade do mercado de trabalho e asfixia econômica no Brasil. E de como não se quer ver que a cantora Gloria, capaz de fazer chorar entre nós os defensores do Estatuto da Criança e do Adolescente, pretende ser a nossa versão de saias de Ronald Biggs, o assaltante do trem postal inglês que teve um filho brasileiro para protelar o retorno a Londres. Não vê quem não quer. Maquiar é mais fácil.

Mais um exemplo de make-up: nos últimos dias, um bando de sequestradores foi preso em São Paulo, mantendo em cativeiro um adolescente. Coisas do destino: o menino é filho de um dos sequestradores de outro garoto, assassinado anos atrás. O algoz era policial militar, segurança (?!) do pai do menino num supermercado. Muitos gostam de maquiar impulsos e motivações do crime. Nesse caso concreto, o pai do menino em cativeiro chorou amargamente na prisão. Sabia que se suas justificativas fossem aceitas, o próprio filho - que evidentemente nada tem a ver com isso - seria implacavelmente morto caso os sequestradores de seu filho raciocinassem como ele no caso em que não hesitou em condenar à morte uma criança indefesa. A maquiagem pode derreter-se ao sol, escorrer diante da chuva, tornar-se inútil diante da realidade. O melhor para todos nós, como sociedade, é ver as coisas como elas realmente são. Deixemos com Pirandelo pensar com ironia que ''assim é, se lhe parece''.

mockup