Rio, 24 (AE) - Quando for chamado para depor na Polícia Federal (PF), o que deverá acontecer na próxima semana, o major reformado do Exército Divany Carvalho Barros, de 66 anos, vai negar ser "sócio" do funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Temílson de Resende, o "Telmo" - principal suspeito pelo grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Barros é apontado no dossiê entregue à Justiça pelo ex-policial federal Célio Arêas da Rocha como integrante do esquema de escuta telefônica clandestina que atua no Rio.
"Sou amigo do Telmo, mas não trabalhamos juntos", afirmou o major hoje. Segundo ele, os dois almoçavam juntos quase diariamente até há cerca de dois anos, quando uma divergência pessoal os afastou. Barros contou que soube do possível envolvimento do agente no grampo do BNDES numa conversa com o engenheiro eletrônico Paulo Renaud - que também consta do dossiê - em dezembro. O major disse que Renaud trabalhava oficiosamente com a Polícia Federal (PF), ajudando nas investigações. "Assim que soube dessa história, liguei para o Telmo porque ainda o considero meu amigo", contou.
Na versão de Barros, Telmo disse que ia responder a uma comissão de sindicância, o que, efetivamente, aconteceu, e que o nome dele havia sido "plantado" por conta da briga entre a PF e a Abin - a polícia nunca se conformou com a decisão do governo de pôr o combate às drogas sob o chapéu na nova agência.
O major, que trabalhou no Doi/Codi e no Serviço Nacional de Informações (SNI), onde conheceu Telmo, tambéu negou que seja araponga.
"Meu negócio é segurança física, pessoal e patrimonial", garantiu. No entanto, ele confirmou várias informações do dossiê do ex-policial.
Disse que fazia a segurança do banqueiro David Rockfeller, quando ele vinha ao Brasil, que trabalhou para diretores do Chase Manhattan Bank e com o banqueiro Salvatore Alberto Cacciola, dono do Banco Marka, a quem encaminhou um planejamento para impedir que fosse novamente sequestrado.
Barros afirmou ter trabalhado também para o braço carioca da empreiteira Odebrecht: ele montou a segurança da portaria e era o responsável pelo Setor de Limpeza. "Eu organizava a segurança dos camarotes deles no sambódromo", contou. "Todo mundo me conhece nessa área e sabe que sou o melhor no Rio para segurança pessoal." O diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, Roberto Dias, confirmou, por meio da assessoria, que Barros prestou serviço terceirizado à construtora, da qual está afastado há três anos.
Segundo Barros , a acusação de Rocha é uma vingança contra o fato de ter demitido o ex-policial. Em 1995, Barros e o coronel Otelo José da Costa Ortiga, que tinha sido superior dele no Doi/Codi, montaram uma empresa de dados cadastrais, a Soper.

Eles coletavam informações sobre os antecedentes de funcionários. O principal cliente era, disse Barros, a cadeia de supermercados Zona Sul. "O Ortiga trouxe o Célio para trabalhar conosco, mas, depois de um ano, descobri que ele estava nos roubando", contou o major.
Foi Rocha que, segundo o major, o apresentou ao técnico em eletrônica Nelsino Drozczak da Silva - apontado pelo ex-policial como outro "sócio" de "Telmo" e de Barros. "O Nelsino tinha uma maleta anti-grampo e queria me vender, mas o equipamento era muito caro", contou Barros.
"Preferi chamá-lo quando precisasse desse tipo de serviço, o que aconteceu algumas vezes." Como "Telmo" frequentava o escritório da empresa, que ficava perto do escritório da agência de inteligência no Rio, conheceu Silva ali
na versão do major.
O delegado federal Rubens Grandini, responsável pelas investigações sobre o caso, reuniu-se no fim da tarde de hoje com a equipe, na sede da PF do Rio, para definir que vão traçar estratégias de atuação a partir de segunda-feira (27). Ele deve convocar todas as pessoas cujos nomes apareceram ao longo das investigações.

mockup