Major não fala à CPI da Violência
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terça-feira, 22 de abril de 1997
Agência Estado 
Arquivo FolhaPara comandante, cenas das agressões registradas no Rio são armadasRIO - O major da PM Álvaro Rodrigues Garcia, que comandou o grupo de policiais que espancou moradores na Cidades de Deus, negou-se ontem a dar sua versão sobre o episódio à CPI da Violência Policial instalada pela Assembléia Legislativa fluminense (Alerj). Logo no início da sessão, Garcia disse que a filmagem das agressões - feita por um cinegrafista amador - foi armada. Tudo não passou de um teatro onde éramos os figurantes, afirmou o oficial, que em seguida se reservou o direito de depor apenas em juízo.
O deputado Luís Novaes (PMDB) pediu para que o major tivesse coragem para responder às perguntas dos integrantes da CPI e quis saber sobre a formação profissional do oficial. Tenho 15 anos de polícia, 12 deles trabalhando na rua; por isso não me falta coragem para fazer nada, respondeu Garcia, em tom ríspido. Irritado com a insistência do parlamentar, que lhe fez outros questionamentos, o major retrucou: Não sei se o senhor entendeu, mas somente vou depor em juízo.
Frustrados por não conseguir convencer o major a depor, os deputados dispensaram Garcia, que acabou permanecendo menos de meia hora no plenário. O advogado Ubiratan Guedes, que defende o oficial, disse que orientou seu cliente a proceder dessa maneira. Foi para ele não se expor, não se desgastar mais, disse Guedes, numa referência ao depoimento prestado por Garcia sexta-feira à Auditoria Militar. Ele já foi inquirido por pessoas tecnicamente capacitadas.
Guedes voltou a dizer que o flagrante da filmagem foi armado por traficantes de drogas. A fita não mostra o que aconteceu antes da chegada dos policiais. Segundo o advogado, o motivo gerador da atitude dos policiais foi a forma como os PMs foram recebidos ao chegar à favela. Eles foram xingados e provocados, e acabaram se excedendo, disse Guedes, para quem as vítimas da agressão escolheram até o local onde ocorreram os espancamentos - um paredão próximo a um bar -, por ser melhor iluminado e facilitar a filmagem.
No sábado, quatro integrantes da comissão realizaram uma sessão itinerante na Cidade de Deus. Durante a visita, que durou mais de duas horas e meia, os parlamentares ouviram testemunhas da agressão e foram ao Sítio dos Passarinhos, também conhecido como Sítio do Terror, um terreno onde, segundo moradores, policiais promovem sessões de tortura. Os deputados também vão apurar informações de que o terreno - que seria de propriedade de um coronel da PM - seja utilizado como cemitério clandestino.
Moradores ouvidos pelos parlamentares disseram que outros policiais - além dos seis denunciados a partir da filmagem - também estão envolvidos em casos de violência. Um relatório produzido a partir da visita cita dois PMs - Oliveira e Carlos -, que teriam exigido R$ 1,2 mil de uma moradora identificada apenas como Dona Renata. De acordo com o relatório, o marido dela foi detido por outros PMs, que o levaram para o Sítio dos Passarinhos e colocaram um pneu em sua volta, ameaçando atear fogo com gasolina se ele não contasse quem era o traficante da área.
A comissão também foi informada de que a maioria das 11 pessoas que aparecem nas filmagens sendo agredidas por PMs já foi embora da região por causa das ameaças. Cinco delas foram convocadas para depor na CPI amanhã.


