Mais segurança nas estradas?
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domingo, 07 de maio de 2017
Viviani Costa<br>Reportagem Local 

Mais de 22,5 mil pessoas que tinham carteira de habilitação das categorias C, D e E tiveram o documento suspenso após a realização do exame toxicológico que apontou o uso de substâncias psicoativas, como anfetaminas, metanfetamina, cocaína, maconha, heroína e ecstasy. Os números, obtidos a partir de março de março de 2016, quando o exame passou a ser obrigatório, são do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).
Um dos objetivos era reduzir a quantidade de acidentes nas estradas por meio da suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) de motoristas que dirigem sob o efeito de drogas. No entanto, um ano após a medida, entidades divergem quanto aos resultados práticos nas rodovias.
Conforme o Denatran, de 2 de março de 2016 (quando a lei entrou em vigor) até 31 de março de 2017 foram realizados 1.453.045 exames toxicológicos em todo o país. Desse total, 22.531 apresentaram resultados positivos para o uso de substâncias psicoativas. São Paulo foi o estado que mais realizou exames durante o período. Foram pouco mais de 338 mil. Minas Gerais ocupou a segunda colocação com 148.497, seguido do Paraná com 145.924.
No entanto, considerando a proporção de resultados positivos por exames realizados, o estado do Maranhão apresentou o maior índice com 11,9%, seguido de Tocantins, Acre, Amazonas e Bahia (veja o infográfico). No Paraná, 1.759 motoristas foram reprovados.
A disparidade na quantidade de exames realizados nos estados se deve a dezenas de liminares protocoladas na Justiça para tentar impedir a obrigatoriedade do exame. Em alguns casos, a medida chegou a ser suspensa, mas já está em vigor em todo o país. O exame toxicológico é feito a partir da amostra de cabelo do motorista retirada nos postos de coleta dos laboratórios. Por meio das mechas, é possível identificar se algum tipo de droga foi consumida nos últimos 90 dias.
Para o presidente da Associação Brasileira de Laboratórios Toxicológicos (Abratox), Marcello Santos, o exame é necessário e constata se o condutor consome regularmente substâncias que possam comprometer a atividade profissional e a segurança dos demais motoristas nas estradas. "Ele serve para verificar o padrão de comportamento daquele proponente à habilitação ou à renovação. Ele não serve para verificar se aquele motorista está fazendo o uso de alguma substância no exato momento em que ele está na rodovia. Para detectar isso, você teria que ter uma outra política de exames toxicológicos. Mas essa medida já é uma política preventiva", defende. Santos argumenta que a aplicação de testes instantâneos em operações de fiscalização nas estradas, assim como ocorre no caso dos etilômetros, seria mais difícil de ser implementada.

Já o diretor de Comunicação e do Departamento de Medicina do Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues Alves Júnior, afirma que a entidade "não vê efetividade na aplicação do exame". "O exame toxicológico é absurdo. Não é compatível com a necessidade maior que a lei propõe que é reduzir os acidentes de trânsito nas rodovias. A lei foi feita para motoristas profissionais, mas abrange todos das categorias C, D e E. Porém, tem motoristas nessas categorias que não são profissionais, eles têm veículos para uso próprio como uma van ou uma unidade de pequeno porte e estão deixando de fazer o exame ou estão pedindo a reclassificação da carteira de habilitação para não ter que passar pelo teste", ressalta.
Alves Júnior argumenta que a exigência do exame apenas para a primeira habilitação e para a renovação da CNH a cada 5 anos não garante que os motoristas trafegam sem fazer uso de substâncias psicoativas. "Se é para fiscalizar os indivíduos que estão sob o uso de drogas, nós temos que fazer o exame naquele momento em que eles estão nas rodovias", alega.
A lei prevê a suspensão da CNH por até três meses quando o resultado do teste aponta a presença de drogas no organismo do condutor. Para muitos, isso inviabiliza o exercício da profissão. O documento só é regularizado mediante resultado negativo no exame.
Em todo o Brasil, menos de 2% dos profissionais que realizaram o teste foram reprovados. Para o Coordenador-geral de Educação do Denatran, Francisco Garonce, o índice é significativo. "Você não consegue medir a quantidade de acidentes que não aconteceram, mas só de saber que quase 25 mil condutores que tiveram o resultado positivo tiveram o direito de conduzir suspenso, este é um número significativo de pessoas que não têm mais o direito de estar nas estradas trazendo risco para os demais", avalia.
Com a obrigatoriedade, muitos motoristas passaram a pedir a reclassificação ou rebaixamento da categoria da CNH. Pessoas que possuíam carteira de habilitação C, D ou E decidiram renovar o documento apenas na categoria B, para conduzir automóveis.
Segundo dados do Detran-PR, mais de 205 mil CNHs foram renovadas no Estado entre março de 2016 e fevereiro de 2017. Neste contexto, 67.249 documentos foram reclassificados. Considerando o período anterior entre março de 2015 e fevereiro de 2016, foram realizadas apenas 17.679 reclassificações.
Trafegar com a carteira vencida ou em veículos de categoria diferente da apontada na CNH gera multa. "Se estão fazendo isso é uma ilegalidade. Para coibir essas ações existem as fiscalizações contínuas nos postos das polícias rodoviária estadual e federal", alerta Garonce.
A aplicação de exames toxicológicos nas operações de fiscalização nas estradas para flagrar motoristas irregulares é uma das medidas estudadas pelo Denatran. "Outras ações devem ser implementadas, mas são os próximos passos. O que nós não podemos é simplesmente desvalorizar esta ação porque ela já está cumprindo uma parcela da responsabilidade total que é retirarmos todos aqueles que fazem uso de substâncias psicoativas e que tenham as suas habilidades para conduzir afetadas por isso. Este é um primeiro passo", conclui o coordenador-geral de Educação do órgão.
Sindicato reclama do custo do exame
Oito laboratórios são credenciados para fazer a análise das amostras e centenas de postos de coleta funcionam em todo o país. O exame custa, em média, R$ 280, segundo informação da Associação Brasileira de Laboratórios Toxicológicos (Abratox). No entanto, este é mais um gasto repassado aos profissionais.
O delegado regional de Paranaguá do Sindicato dos Condutores Autônomos de Bens (Sindicam-PR), Hilton Rangel, afirma que o sindicato não é contra a obrigatoriedade do exame, mas "a taxa não deveria ser cobrada" "Deveria ser gratuito. É mais um dinheiro que o caminhoneiro tem que desembolsar", critica. Para ele, a realização do teste nas estradas seria uma medida mais prática e efetiva para reduzir os acidentes.
Muitos caminhoneiros recorrem ao uso de anfetaminas como o chamado "rebite" e de cocaína para cumprir exaustivas jornadas de trabalho e aumentar a renda mensal. "Antigamente usava-se bastante o rebite, depois alguns motoristas utilizavam cocaína para se manter acordado e completar a viagem. Com essa exigência do exame, muitos pararam com isso para não perder o emprego", conta Rangel.
Apesar da jornada de trabalho dos caminhoneiros ser de até 12 horas, com intervalos de descanso a cada 4 horas, os horários estabelecidos pelas empresas para descarregar os produtos transportados e a exigência por mais agilidade prejudicam os motoristas, segundo ele. "As empresas fazem o agendamento para a entrega da carga, mas não consideram o tempo necessário para a viagem. Esses dias, um caminhoneiro em Paranaguá tinha que chegar às 6 horas da manhã. Ele chegou às 6h03 e teve que esperar até a meia-noite para descarregar porque tinha perdido o horário agendado. Muitos deles nem cumprem o período de descanso nas estradas."
Além do custo do exame, muitos motoristas se sentem constrangidos após a coleta das amostras de cabelo em razão das falhas estéticas deixadas pelos profissionais. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Laboratórios Toxicológicos (Abratox), Marcello Santos, é necessária uma pequena quantidade de cabelo para a realização do exame. "Pode ser coletado de dois ou três pontos da cabeça para não deixar marcas estéticas. Falta experiência", lamenta.
Já o diretor de Comunicação e do Departamento de Medicina do Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues Alves Júnior, defende que o exame de urina e o de sangue poderiam ser mais eficazes. "O cabelo, para nós médicos, não é considerado como sendo primordial para o diagnóstico do uso de drogas. Atletas fazem exame de urina ou sangue no antidoping, por exemplo", aponta. Quanto ao custo do teste, o Denatran informou que não pode interferir nas regras de mercado e nos preços estabelecidos pelos laboratórios credenciados. (V. C.)


