Imagem ilustrativa da imagem Mais jovens brancos do que negros são assassinados no Paraná



A cada 100 mil jovens do Paraná autodeclarados brancos com idade entre 15 e 29 anos, 59,3 foram vítimas de homicídio em 2015. Já a taxa entre a população de jovens negros na mesma faixa etária mortos violentamente chegou a 44,8 no Estado. Os números fazem parte do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, estudo divulgado nesta segunda-feira (11) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e vão na contramão dos dados revelados na maioria dos Estados brasileiros, onde jovens negros são as principais vítimas da violência.

O levantamento foi realizado com o apoio da Secretaria Nacional de Juventude a pedido da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Os pesquisadores consideraram dados de 2015. Naquele ano, 86,3 jovens negros foram vítimas de homicídios em todo o País a cada 100 mil habitantes da mesma faixa etária e composição racial. O número é quase três vezes maior se comparados aos dados relacionados aos jovens brancos (31,9).

Conforme o estudo, jovens negros do sexo masculino, moradores das periferias e em áreas metropolitanas dos centros urbanos são os mais atingidos pela violência no País. Dados publicados anteriormente pelo Fórum mostram que dos quase 60 mil homicídios registrados no Brasil em 2015, pouco mais de 31 mil vítimas eram jovens entre 15 e 29 anos, sendo 71% negros (pretos e pardos) e 92% do sexo masculino.

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A pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Roberta Astolfi, destacou que os índices seguiram os últimos estudos realizados pela entidade e que comprovaram a desigualdade entre brancos e negros no País. Os dados do Paraná serão analisados posteriormente. "Ainda não temos hipóteses explicativas para o Paraná. Algumas pessoas pensam que poderia ser um fenômeno associado à composição da população (na maioria brancos), mas há outros Estados da região Sul com composições semelhantes que não apresentaram esse resultado. É uma questão de registro ou será que o fenômeno é diferente? Isso está para ser respondido ainda", ressaltou.

Para calcular os índices de vulnerabilidade apontados no relatório, os pesquisadores consideraram aspectos como a violência entre os jovens, a frequência escolar, a inserção no mercado de trabalho, a pobreza nos municípios e a desigualdade, além das diferenças na mortalidade entre jovens brancos e negros no Brasil e a relação das taxas de mortalidade entre mulheres jovens brancas e negras.

Ao todo, 12 Estados apresentaram alta vulnerabilidade, grande parte deles nas regiões Norte e Nordeste. Em Alagoas e no Amapá, por exemplo, a chance de jovens negros serem mortos em comparação com jovens brancos é 12,6 vezes maior e 11,9 vezes maior, respectivamente. Outros cinco Estados e o Distrito Federal foram considerados de baixa vulnerabilidade. Fazem parte dessa lista Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, este último apresentou os índices mais favoráveis à população jovem. O Paraná foi classificado como média vulnerabilidade.

Para a pesquisadora, a realização do estudo poderia direcionar investimentos para reduzir os índices de vulnerabilidade em todo o País. "Tendo os territórios bastante específicos e conhecidos, você diminui a área de atuação e consegue otimizar os recursos", apontou.

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MULHERES
Já em relação às mulheres, a taxa de homicídios entre as negras aumentou 22% no País considerando as taxas de homicídio registradas entre 2005 e 2015. Os dados são do Atlas da Violência (2017) também publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em contrapartida, a quantidade de homicídios de jovens brancas no mesmo período caiu 7,4%.

Segundo o novo relatório divulgado nesta segunda-feira, uma jovem negra tem duas vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma jovem branca. Os números nacionais apontam que a cada 100 mil habitantes, 7,8 jovens negras foram vítimas de homicídios em 2015. Já a taxa de jovens brancas mortas no mesmo período foi de 3,6. No Paraná, a taxa de homicídios de jovens negras foi de 4,8 a cada 100 mil habitantes, enquanto que de jovens brancas chegou a 6.

Londrina apresenta melhora em índice de vulnerabilidade

A pesquisa do Fórum Nacional de Segurança Pública analisou, ainda, dados de 304 municípios com mais de 100 mil habitantes. Londrina foi classificada com média-baixa vulnerabilidade e está entre as dez cidades que apresentaram melhora acentuada nos indicadores. Em linhas gerais, o índice caiu de 0,4 (em 2012) para 0,3 (em 2015). Quanto mais próximo ao número 1, maior é a vulnerabilidade. Cascavel e São José dos Pinhais também fazem parte do ranking dos dez municípios que apresentaram melhora.

Mesmo com a melhora nos indicadores gerais de Londrina e os dados referentes ao Paraná, o professor e pesquisador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Cláudio Galdino, destacou que a desigualdade entre brancos e negros exige atenção do poder público. Mestre em Ciências Sociais, Galdino afirmou que a possibilidade de um negro ser assassinado em Londrina é 60% maior do que um branco.

Entre os fatores considerados por ele estão a baixa escolaridade, a faixa etária e a localização dos bairros habitados pelas vítimas. "As políticas públicas, de modo geral, são direcionadas para algumas regiões das cidades como a região central. Se nós analisarmos bairros carentes como o Jardim União da Vitória (zona sul), o Residencial Vista Bela (zona norte) e o Jardim Olímpico (zona oeste), por exemplo, vamos ver uma ausência do Estado. São bairros esquecidos de maneira geral", comentou.

Para a pesquisa de conclusão do mestrado, o professor analisou dados relacionados à vulnerabilidade em Londrina considerando informações repassadas pelo IML (Instituto Médico-Legal de Londrina) e pelos Cras (Centro de Referência de Assistência Social). Entre 2005 e 2014, houve 738 mortes violentas de pessoas consideradas brancas e 475 referentes a negros. Porém, o professor lembrou que muitos não se autodeclararam negros.

"O racismo ainda é presente em Londrina e no Paraná. O negro apresenta maior vulnerabilidade social e quando é morto, de uma forma geral, a sociedade não se comove e logo imagina que a vítima está envolvida na criminalidade. A morte de um jovem pobre e negro é quase validada como uma limpeza mesmo. Por outro lado, se a morte ocorre na área central há uma comoção da sociedade", afirmou. A redução na desigualdade entre brancos e negros, segundo Galdino, passa por investimentos e melhorias na educação e pela implantação de políticas públicas mais efetivas. (V. C.)

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