Mais investimento, menos qualidade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de outubro de 2014
Diego Prazeres<br>Reportagem Local 
Londrina - Se a saúde pública de Londrina não vai bem não é por culpa dos investimentos no setor. No período de 2002 a 2010, o gasto per capita em saúde na cidade foi superior anualmente ao de outros três municípios paranaenses que também têm a gestão plena da saúde, oferecendo atendimento de média e alta complexidade: Curitiba, Maringá e Foz do Iguaçu. No entanto, esse investimento não se refletiu na melhoria da qualidade de indicadores importantes como a taxa de mortalidade infantil, cuidados à atenção básica e período de internamento. Ao contrário. Os índices em Londrina estão abaixo dos apresentados pelas outras três cidades, no mesmo período. Quem afirma isso é o professor no departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marcelo Ortega Massambani, que em sua dissertação de mestrado, no ano passado, fez uma avaliação econômica dos gastos públicos em saúde dos principais municípios do Paraná. O estudo foi premiado como a segunda melhor dissertação do Brasil pelo Conselho Federal de Economia (Confecon).
"Londrina sempre gastou mais do que Curitiba, Maringá e Foz do Iguaçu, mas trouxe menor qualidade de saúde para a população do que esses três municípios", resume Massambani, mestre em Economia Regional. As quatro Regionais de Saúde estudadas concentram 56% dos gastos do setor no Estado. A explicação pode estar na forma como o município gere os recursos. "Eu não posso dizer que esses problemas de investimento foram relacionados à corrupção ou à falta de estrutura. Eu resumo isso tudo em gestão. Acredito que a melhoria na gestão desses recursos traria mais benefícios a toda a população de Londrina. Não justifica Londrina gastar mais do que outros municípios e a qualidade da saúde estar inferior", defende.
Com base nos dados disponibilizados pelo Datasus, do Ministério da Saúde, o economista trabalhou com as diretrizes de performances preconizadas pelo Pacto da Saúde de 2006, que por força de lei determinou um maior investimento de Estados e municípios na gestão da saúde pública. "Peguei os gastos com saúde per capita de cada um dos quatro municípios, para que todos pudessem ser comparados entre si e criei indicadores específicos que relacionam os gastos com as performances em mortalidade infantil, período de internamento e atenção básica", explica.
Em 2002, o gasto per capita de Londrina em saúde foi de R$ 433,93, superior aos de Curitiba (R$ 336,75), Maringá (R$ 381,75) e Foz do Iguaçu (R$ 262,76). Em 2010, os valores subiram para R$ 571,07 per capita, novamente acima de Curitiba (R$ 481,35), Maringá (R$ 535,87) e Foz (R$ 438,07). Só que no mesmo período a cidade registrou a menor queda na taxa de mortalidade infantil. O índice foi de apenas 10,9%, bem abaixo do desempenho do Paraná (queda de 39,3%), Curitiba (34%), Maringá (31,7%) e Foz do Iguaçu (38,5%). Em relação à mortalidade dos pacientes internados, Londrina também obteve os piores indicadores, com alta de 40%, contra 23% de Curitiba e 27% de Maringá.
Massambani defendeu o método que utilizou para desenvolver o estudo. "Nós, economistas, trabalhamos com números. E os números não mentem. O índice para cada indicador de saúde seguiu o mesmo princípio que se usa para calcular o índice de inflação, porque ele reflete a realidade. Os indicadores criados para Londrina também foram criados para Maringá, Curitiba, Foz e refletem o que os números de cada município dizem", afirma. Para o professor, a solução para equilibrar investimento e melhor na qualidade nos indicadores da saúde é simples. "A saúde em geral precisa de mais investimentos, mas a maquina pública tem que ser melhor gerida", aponta.


