Curitiba - O dia 27 de maio de 2010 foi o último em que a professora Iria Mara De Marco Silva, de 50 anos, entrou em uma sala de aula de uma escola estadual de Curitiba. Na nona aula daquele dia, a docente não suportou o nível de estresse, pressão e nervosismo e teve que se afastar da profissão.
Há três anos e sete meses, ela segue com tratamento psicológico e medicações contra os problemas que apareceram por causa da profissão.
Íria acumulou o nervosismo de um sistema de ensino que, para ela, está sobrecarregado de alunos, sem estrutura ou espaço físico para os professores e adolescentes e com inúmeras cobranças para que os docentes evitem a reprovação dos jovens. "A culpa da reprovação dos alunos sempre foi do professor", reclama.
Em seu último ano no ensino público, a professora comenta que foram diversos os motivos para que ela ficasse emocionalmente abalada. Ela chama atenção para o fato de os professores começarem o ano participando de uma semana pedagógica, quando "são cobrados por causa do fraco desempenho estudantil, mas não se discute formas para melhorar o ambiente escolar ou o ensino".
Outro problema apontado pela professora, que lecionava Artes, foi o fato de os alunos apresentarem, cada vez mais, comportamentos descontrolados. Ela conta que alguns entravam em sala de aula embriagados, sob efeito de drogas, e outros promoviam brigas e bullying. "Isso ia me angustiando demais. Eu sempre fui uma pessoa ligada, atenta. Todo mundo foi percebendo que estava havendo uma mudança."
Além da questão psicológica, outros problemas surgiram por causa da sobrecarga de trabalho e do estresse da profissão, como as consequências físicas para a professora. "Teve uma época em que meu coração começava a bater desordenadamente à noite. Era o estresse que eu tinha passado o dia inteiro. Meu corpo estava pedindo socorro", comenta.
A docente foi diagnosticada com Síndrome de Burnout, uma doença provocada pelo intenso desgaste por causa da profissão. De acordo com o psicólogo Clóvis Amorim, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a síndrome é caracterizada por três dimensões: despersonalização (quando o doente trata as pessoas como coisa ou objeto), esgotamento ou exaustão emocional e baixa realização profissional.
Para Amorim, há uma tríade dentro do ambiente escolar que contribui para o adoecimento dos docentes: a gestão da escola, com a pressão para bons resultados dentro de sala de aula, os conflitos no trabalho, com colegas e pais de estudantes, e a relação com os alunos. "O respeito diminui e as agressões aumentam", explica o professor.
Segundo Amorim, problemas físicos podem surgir como consequência do abalo emocional. "Em uma leitura psicoanalítica, o sofrimento mental é desencadeador de outras doenças, como gastrite, cefaleias e fibromialgia", completou.

Atendimento
Iria reclama que, após se afastar das salas de aula, teve problemas para conseguir tratamento adequado na rede estadual de saúde, o SAS (Sistema de Assistência à Saúde). Houve, segundo ela, diagnósticos errôneos por parte dos médicos e o problema foi resolvido apenas quando ela procurou o Sistema Único de Saúde (SUS), do governo federal.
Na opinião da presidente da APP Sindicato, Marlei Fernandes, o alto grau de estresse, aliado ao mau atendimento na rede de saúde do estado, faz com que os professores que têm problemas psicológicos não consigam "criar grau de superação". "Aliado a todo esse processo, também tem a idade do professor, o desgaste físico acentuado, acumulado ao longo dos anos", avalia.(R.B.)

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