Cambé - Por volta das 10h30 de ontem, 64 dos 169 presos na Delegacia de Cambé (Região Metropolitana de Londrina) conseguiram fugir depois de renderem o agente prisional e um investigador durante a limpeza do lixo e fornecimento das refeições. Segundo o delegado Jorge Barbosa, a ação teria acontecido cinco minutos após ele ter deixado a delegacia. "Eu estava terminando o relatório de um homicídio, quando saí e, cerca de dois ou três minutos depois da minha saída do prédio, aconteceu a fuga", revelou. Os policiais conseguiram recapturar 31 foragidos até início da noite de ontem.
Segundo o delegado, não houve facilitação de fuga. Os bandidos colocaram um estoque na nuca do agente prisional e o ameaçaram de morte caso o investigador não abrisse as celas. "O investigador não deveria ter cedido. Os bandidos fugiram pela frente da delegacia. O prédio é muito seguro. Nunca houve o registro da construção de um túnel aqui. Um deles pegou a arma de uma investigadora", relatou o delegado.
O metalúrgico Geraldo Correia Aguiar, de 52 anos, estava em um bar vizinho à delegacia quando viu os primeiros fugitivos saltando o portão. "Quando pularam dois eu disse: ‘É fuga’. Eu avisei meu amigo e entrei no bar, mas começaram a sair um atrás do outro", expôs.
Na fuga, alguns deles deixaram seus calçados para trás. Sandálias de borracha ficaram no pátio, um tênis ficou preso na grade da delegacia e outro calçado ficou para trás na calçada. "Eu moro aqui perto e sinto insegurança. A gente não sabe o que passa na cabeça desse pessoal que fugiu. Com essas pessoas na rua, a gente chega à conclusão que o desarmamento do País é a coisa mais errada que teve, já que o bandido anda armado e a gente não", argumentou Aguiar.
Uma adolescente de 16 anos, vizinha da delegacia, relatou que ainda estava dormindo quando escutou quatro tiros, por volta das 10h40. "Achamos que era uma batida entre carros. Subimos na rampa para ver o que tinha acontecido e não sei de onde começaram a sair os presos. Fiquei do lado de dentro do condomínio com receio de ter mais disparos", destacou.
Conforme as viaturas chegavam foi ganhando confiança para tentar ver o que estava acontecendo. Ela temia que alguns fugitivos pudessem procurar abrigo no prédio durante a fuga. "Se algum deles conseguisse abrir a janela, conseguiria fazer reféns, já que existem muitas janelas que não possuem grades", disse.
Os fugitivos partiram em direção ao Conjunto Habitacional Santa Isabel, pela Avenida Roberto Conceição. A partir de lá passaram a buscar refúgio nas casas ou procurar por veículos de fuga.
Viaturas da Polícia Militar de Cambé, de Londrina, do Pelotão de Choque da PM e o helicóptero do Grupamento Aeropolicial e Resgate Aéreo (Graer) foram acionados e passaram a fazer buscas em toda a região.
O torneiro mecânico José Aparecido Merelo, de 50 anos, relatou que roubaram o carro da sobrinha dele, um Palio azul. "Entraram na casa dela, forçaram a porta e pegaram a chave. O carro estava na rua. Ela ficou aterrorizada e não conseguia fazer o boletim de ocorrência logo que aconteceu o assalto por causa dessa fuga, já que estavam todos os policiais ocupados", destacou. O veículo foi encontrado abandonado em Arapongas. Outro carro, um Peugeot, também foi roubado nas imediações da delegacia, mas até o fechamento da edição não havia sido localizado.
Do lado de fora da delegacia, a mulher de um detento mostrava apreensão por não saber se o marido havia fugido. "Ele foi preso por tráfico de drogas. Eu não sei quem fugiu, nem sei se ele permaneceu na delegacia. Se ele fez uma burrada dessas, nossa senhora, eu fico com medo que aconteça o pior com ele, mas em nome de Jesus não é o meu marido não", declarou.
Morador das imediações, o marceneiro Emerson Oliveira, de 40 anos,declarou que viver ao lado da delegacia é tenso. "Mas infelizmente a gente tem que conviver com isso. É a primeira vez que passo por isso desde que me mudei aqui, no ano passado. Eu não pretendo mudar novamente não, mas fico cada vez mais preocupado com esse tipo de situação", declarou.
Segundo o delegado Jorge Barbosa, a ação foi comandada pelos detentos mais perigosos e nem todos aproveitaram a oportunidade de fugir.
Um policial militar se feriu ao cair do telhado de uma casa na procura pelos presos. Ele foi levado para receber atendimento em um hospital da cidade, mas passa bem.(Colaborou Lucas Emanuel Andrade/Equipe Bonde)

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