Mais de 2.000 timorenses votam em Portugal
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domingo, 29 de agosto de 1999
Por Jair Rattner, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Lisboa, 30 (AE) - Mais de 2.000 timorenses - a maior parte deles refugiados - votaram hoje (30) em Lisboa no plebiscito sobre a independência da antiga colônia portuguesa. "Tivemos inscritos 2.204 eleitores", conta o cabo-verdiano Carlos Santos
responsável da ONU pela votação em Portugal.
A praça do Jardim Constantino, em Lisboa, localizada em frente ao local de votação, tornou-se durante o dia o ponto de encontro dos timorenses. Depois de votar, centenas de pessoas permaneceram na praça, reencontrando conhecidos e amigos que não viam há anos.
O único incidente ocorreu quando foi votar um dos principais favoráveis à integração na Indonésia, Abílio Araújo. Contrariando as ordens dos dirigentes da resistência, um estudante timorense tentou agredi-lo, acabando por amassar o carro de Araújo a pontapés. Quando chegou a Portugal, Araújo tinha se posicionado a favor da resistência, mas depois mudou de lado.
A esperança de voltar para Timor era o centro das conversas, muitas delas em tetum, a língua nativa de Timor. "Saí há 7 anos porque as autoridades indonésias começaram a procurar por mim. Versos dos meus poemas apareciam pichados nas paredes e em camisetas", conta o poeta João Aparício, que escrevia com o pseudônimo de Kay Shaly Rakmabean. Em Portugal, onde trabalha para a resistência, já tem um livro publicado.
Na praça estava um dos rostos mais procurados pela polícia política Indonésia: Levi Contarial Bucar. Em 12 de novembro de 1991, quando ocorreu o massacre do cemitério de Santa Cruz, ele foi filmado socorrendo um colega que tinha sido atingido pelos tiros dos soldados indonésios. Na época, a imagem de desespero em sua cara percorreu o mundo.
"Quando o massacre aconteceu, os indonésios começaram a me procurar.
Havia alguns timorenses que trabalhavam para a polícia política indonésia e me avisaram. Eu primeiro fui para Bali, para fazer a universidade. Mas um ano e meio depois, os indonésios continuavam me procurando." A decisão de fugir veio depois de mais um aviso dos funcionários timorenses da polícia política indonésia. "Recebi um telefonema avisando que eu tinha sido localizado e que eu deveria fugir ainda naquela semana. Tentei tirar o visto para entrar na Austrália, mas foi recusado. O único meio era comprar um passaporte falso, o que consegui por cerca de 200.000 rúpias, 100 dólares. Depois para sair, tivemos de comprar os funcionários indonésios, o que custou cerca de 50.000 a 60.000 rúpias, mais ou menos 30 dólares".
Com 25 anos, Levi só deve voltar a Timor dentro de quatro anos. "Estou na faculdade de economia em Coimbra e só volto quando terminar o curso".


