Mais de 100.000 em ato de protesto contra Milosevic
Belgrado, 14 (AE-AP) - Nas primeiras manifestações de protesto contra o governo do presidente Slobodan Milosevic em 8 meses, a oposição sérvia superou divergências históricas e conseguiu reunir hoje (14) cerca de 100 mil pessoas no centro da capital iugoslava. Centenas de agentes de segurança acompanharam à distância a concentração, que transcorreu sem incidentes.
Sob o lema "Contra a violência, por eleições democráticas", pelo menos 20 oradores discursaram em meio a aplausos frenéticos dos presentes - entre os quais líderes do movimento estudantil Otpor (Residência), sindicalistas e jornalistas. Exigiram a realização de eleições antecipadas e livres, a dissolução do regime de Milosevic e a democratização da Sérvia. Segundo a rádio independente B2-92, milhares de sérvios de todos os pontos da república atenderam à convocação.
O governo tentou de todas as maneiras frustrar o ato público. A imprensa oficial classificou o ato de "mais uma traição da oposição aliada da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)" e advertiu para a possibilidade de ocorrência de atentados terroristas durante a manifestação. Simultaneamente, a rede estatal de TV Politika anunciou para o horário da concentração vídeos piratas dos últimos êxitos de Hollywood - filmes do agente 007 James Bond, entre os quais Amanhã Eterno, e ainda Beleza Americana - com o claro propósito de reter as pessoas em casa, principalmente os jovens.
A polícia federal, por sua vez, ergueu barreiras nos principais pontos de acesso à capital, informou a emissora de rádio Studio B. Vários ônibus vindos do interior com supostos manifestantes foram barrados, revistados e mandados de volta a seus pontos de origem.
O rigor da fiscalização policial estendeu-se também aos terminais rodoviários e aos aeroportos. Dezenas de jornalistas e líderes sindicais europeus, que desembarcaram no Aeroporto de Belgrado, não receberam autorização para entrar no país e tiveram de retornar. Três dirigentes sindicais espanhóis, Diego Rajón e Roster Pineda, da Confederação Geral do Trabalho, e Alfons Bech, das Comissões Operárias, foram expulsos. Também tiveram de abandonar às pressas a Iugoslávia o jornalistas Bernhardt Kueppers, do diário alemão Sueddeutsche Zeitung, Anthony Germain, da Canadian Broadcasting Corporation, José Comas, do jornal espanhol El País, e quatro repórteres japoneses dos jornais Yomiuri Shimbun e Japanese Economic Daily e da agência Kyodo News.
A agência noticiosa iugoslava Beta incluiu entre os jornalistas impedidos de entrar na Sérvia um norte-americano e um austríaco, ambos não identificados.
O governo espanhol chamou o embaixador iugoslavo em Madri, Radomir Vico, para protestar contra as restrições de Belgrado que "só prejudicam as relações entre os dois países".
Entre os oradores que se sucederam na concentração de Belgrado, figuraram Vuk Draskovic, do Movimento de Renovação Sérvio, e Zoran Djindjic, do Partido Democrata. Draskovic acusou Milosevic de ter lançado o país na "mais profunda pobreza" e de "assassinar opositores". Por sua vez, Djindjic conclamou todos os sérvios a lutar nas ruas e nas praças até a vitória final contra o regime.





