Maioria dos motoristas cochila ao volante
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segunda-feira, 31 de outubro de 2005
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Oitenta a noventa por cento dos motoristas que trabalham à noite no transporte intermunicipal e interestadual já cochilaram ao volante. Os profissionais admitem a gravidade desse descuido, que coloca em risco a vida dos passageiros e de terceiros, mas afirmam que a culpa é do excesso de horas de trabalho e das condições precárias para que reponham as horas de sono.
''O maior problema para quem trabalha em linha interestadual no horário noturno é o excesso de sono. Trabalhar à noite é desgastante porque muitas vezes o motorista não consegue dormir de dia'', explica o motorista Epitácio Antonio dos Santos, que desde 1970 trabalha em uma grande empresa de transporte interestadual. De acordo com ele, um dos problemas é a precariedade dos alojamentos para que os motoristas durmam. É comum, por exemplo, que tenham que dormir em cômodos junto à oficina mecânica da empresa e, em função do barulho, não conseguem descansar.
Mas, segundo Santos, que também é presidente da Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Paraná, a principal causa é o excesso de trabalho. Apesar da jornada da categoria ser de oito horas diárias, em viagens longas é comum o motorista dirigir até dez horas em um dia porque não tem quem o substitua. Outra causa é o que eles chamam de ''bate-volta'': em percursos menores são obrigados a fazer a viagem de ida e volta.
Estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) feito com 400 motoristas de linhas longas, apurou que 55% cochilavam eventualmente enquanto dirigiam. Estudos internacionais recomendam que os motoristas de qualquer veículo parem a cada duas horas de direção contínua, para recuperar inclusive os reflexos. O estudo mostrou, ainda, que 48% dos motoristas de ônibus dirigem cansados, o que aumenta o risco de acidentes.
Segundo o especialista em Medicina do Sono, Marco Túlio Mello, da Unifest, um trabalho específico de medicina do sono feito junto a uma empresa conseguiu reduzir os gastos mensais com pequenos acidentes de R$ 150 mil para R$ 30 mil. ''Outra empresa reduziu o número de 3,6 vítimas para cada 100 mil quilômetros para 0,6 vítimas'', disse.
Em 2004, ocorreram 469 acidentes de ônibus nos 16 mil quilômetros de estradas estaduais do Paraná. Até setembro deste ano, foram 361 acidentes, o que mostra que a média de 40 ocorrências por mês deve continuar. Já a Polícia Rodoviária de São Paulo registrou, no ano passado, 3.520 acidentes de ônibus e microônibus, um crescimento de 19% em relação ao ano anterior. Segundo estimativas de estudos realizados pelo Laboratório do Sono do Hospital Português de Salvador, na Bahia, 32% dos acidentes no Brasil podem ser atribuídos à sonolência e à fadiga (cansaço).


