Maioria dos equatorianos quer renúncia de Mahuad
Quito, 12 (AE) - Mais da metade dos equatorianos (53%) acha que o presidente Jamil Mahuad deve renunciar, 42% que ele deve corrigir o rumo, e só um terço (32%) afirma que a dolarização foi "conveniente". É o que revela pesquisa do instituto Cedatos, que ouviu 612 pessoas. Apenas 9% dizem acreditar na palavra do presidente e 8% aprovam seu governo. A dolarização abalou a já deteriorada confiança no presidente, que, menos de 48 horas antes de anunciar a medida, no domingo, descartara sua possibilidade, comparando-a a "lançar-se no vazio sem pára-quedas".
O instituto também ouviu 92 "formadores de opinião", que se mostraram um pouco mais condescendentes com o governo: 36% dizem que ele deve renunciar, 64%, que deve corrigir o rumo, 51% consideram a dolarização conveniente, 18% acreditam na palavra do presidente, 12% aprovam sua gestão e 84% apoiam mudanças no gabinete.
As entrevistas foram realizadas na segunda-feira, um dia depois do anúncio da dolarização da economia, que fixou o valor da moeda americana em 25 mil sucres - um salto em relação à cotação anterior, de cerca de 22 mil sucres. A impopularidade da medida só tende a crescer, diante do efeito que tem tido sobre os preços. A carne, que até a semana passada era vendida a 10 mil sucres a libra (cerca de meio quilo), saltou para 17 mil sucres.
Isso, quando é encontrada, já que o mercado se está reorientando para a exportação, favorecida pela desvalorização da moeda local, levando à escassez de alguns produtos. Os fornecedores de remédios informaram que os atuais preços têm como base a cotação de 15 mil sucres por dólar - registrada em meados do segundo semestre do ano passado. A aplicação da nova cotação, fixada por lei, quase duplicará os preços.
Mas não há só más notícias na economia equatoriana. A dolarização levou a uma queda dramática das taxas de juros. A taxa básica do Banco Central caiu de 110% para 20%. A meta do governo é chegar aos 7%, patamar próximo ao das economias estáveis. De acordo com o economista Carlos Cortez, no entanto, ferrenho crítico da dolarização, esse índice só será observado internamente: "O Equador continuará pagando entre 28% e 30% de juros sobre a dívida externa, porque tem a penúltima qualificação de risco do mundo." A principal reivindicação de boa parte dos equatorianos, endividada em dólar, que é estabelecer cotação mais baixa da moeda americana para o pagamento das dívidas, não é conveniente, segundo o analista econômico Mauro Toscanini. "O país teria de pagar a diferença, porque os bancos são respaldados pelo Estado", disse o economista. "Quem perde é o povo equatoriano, como sempre." Na região costeira, é época de semear, mas estima-se que entre 60% e 70% dos agricultores não estejam plantando nova safra, porque os insumos estão cotados em dólar, enquanto os preços dos produtos não acompanham a moeda americana. A Câmara de Agricultura, assim como a de Comércio e o empresariado em geral, apoia a dolarização, desde que venha acompanhada de medidas para restaurar o poder de compra da população.
Com o passar dos dias, cresce entre os analistas em Quito a sensação de que a dolarização foi uma medida improvisada, fruto mais do desespero diante da rápida deterioração da economia do que propriamente de uma estratégia. "O governo quis criar um fato consumado", observa o analista econômico Carlos Cortez. "O que acontecerá se o Congresso não aprovar as medidas que respaldam a dolarização?" Os técnicos do governo preparam projetos de lei, a serem enviados ao Congresso dentro de um mês, considerados essenciais para reduzir o déficit público e sustentar a estabilidade. Entre eles, estão privatizações e o fim da estabilidade do funcionalismo público.





