Maioria dos brasileiros não está com a vacinação em dia, diz estudo
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quarta-feira, 08 de novembro de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

Estudo de um laboratório farmacêutico divulgado nesta terça-feira (7) aponta que a grande maioria dos brasileiros adultos (64%) não está com a caderneta de vacinação em dia. Os dados foram coletados em cinco países (Brasil, Alemanha, Índia, Itália e Estados Unidos) com 6 mil pessoas, por encomenda do laboratório GSK, responsável pela produção de 900 milhões de doses de vacinas em 2016.
Segundo o estudo, embora 89% da população reconheça a importância da imunização na prevenção de doenças, um terço (33%) diz que "não sabe" ou "não sabe muito bem" quais vacinas estão disponíveis para a sua faixa etária. Esse porcentual aumenta entre os que não têm filhos: 45%.
A pesquisa revela ainda que 53% não priorizam a imunização como uma forma eficaz de prevenção de doenças e 29% acham que a prática se torna menos importante à medida que envelhecemos.
"A vacinação de crianças é algo que está na alma do povo; é muito mais fácil, faz parte da consulta médica, os pediatras sabem que as crianças precisam de vacinas", disse a presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Regional RJ, Flávia Bravo, lembrando que o Brasil tem uma das melhores coberturas do mundo de vacinação infantil.
Nos últimos 5 anos, 58% dos adultos acima dos 18 anos se vacinaram contra a gripe no Brasil, seguidos de 41% contra a febre amarela e 27% contra a hepatite B. Outras doenças, no entanto, tiveram uma adesão vacinal muito baixa, como sarampo, caxumba e rubéola (10%), meningite C (7%), meningite B (7%) e meningite ACWY (6%). Quase a metade dos adultos (46%) afirmou que nenhum profissional de saúde jamais mencionou a importância da vacinação na vida adulta.
A coordenadora de imunização da Secretaria Municipal de Saúde de Londrina, Sônia Fernandes, disse que várias vacinas mencionadas na pesquisa não estão disponíveis nas unidades básicas de saúde por não integrarem o PNI (Programa Nacional de Imunizações) e, por este motivo, não é possível realizar um comparativo com o quadro local. "A Sociedade Brasileira de Imunização recomenda algumas vacinas, mas o PNI possui um calendário de vacinas próprio e por isso a análise fica complicada", argumentou.
Segundo ela, a prevenção de doenças com vacinas é bastante eficiente e mais barata do que os custos do tratamento da doença, mas várias vacinas não são disponibilizadas universalmente porque não há justificativa epidemiológica. "Quando a saúde pública oferece medicação é em relação à comunidade como um todo e não à questão individual. Trabalha com o coletivo. É preciso tomar cuidado, pois a vacina está se tornando um grande comércio. Quem prescreve deve conversar quais as vantagens e desvantagens de cada vacina. Existem vacinas que não são 100% eficazes. Aliás, só a vacina contra o tétano oferece 100% de proteção e em nenhum momento isso é discutido", afirmou.
A coordenadora explicou, por exemplo, que a vacinação contra a febre amarela voltou ao calendário em 1999 e há a recomendação de se fazer a imunização de todos os habitantes. "Como é uma dose só é difícil ter um cálculo de quantos precisam tomar e quantos já tomaram. Há também pessoas que procuram a UBS e não guardam comprovante de vacinação. Outros fazem a opção por não tomar."
Ela aponta que existem aqueles que têm medo de injeção e alguns acham que vacina é coisa de criança. "Há os casos de adultos que se sentem bem e acham que não precisam de vacina", destacou.
"A vacinação de adultos serve para proteger os adultos, claro, mas também tem um papel importante na redução da transmissão das doenças em geral", diz Flávia Bravo. "Por exemplo, tivemos agora um surto de sarampo no Ceará que levamos um ano para controlar: temos uma cobertura maravilhosa no que diz respeito às crianças, mas tem muitos adultos que não são vacinados contra sarampo."
O levantamento mostrou, no entanto, que, no que diz respeito à prevenção de doenças, os brasileiros preferem adotar outras práticas, como não fumar (81%) e se alimentar bem (78%).
Segundo Bárbara Emoingt Furtado, gerente médica de vacinas da GSK, a falta de conhecimento sobre os imunizantes disponíveis, a ausência de uma cultura de vacinação de adultos são motivos para a baixa cobertura. Uma outra razão seria econômica. "Quando falamos em saúde pública, sabemos que as crianças são mais suscetíveis e podem ter complicações mais graves do que um adulto saudável; então o foco costuma ficar nos menores, não criamos a cultura de vacinar adultos", afirmou. "O custo econômico também pode ser impeditivo." (Com Roberta Jansen/Agência Estado)
'Algumas vacinas são desnecessárias'
O diretor do Centro de Epidemiologia do Paraná, João Luiz Galego Crivellaro, entende que parte das vacinas mencionadas pela pesquisa do laboratório GSK é particular e que a ampla imunização da população não é justificável do ponto de vista da saúde pública. "Cobertura vacinal não é o que eles colocam no estudo, mas o que consta no PNI", defendeu. "Para quem tem recurso financeiro, não temos nada contra o uso das doses, mas o estudo epidemiológico mostra que não há necessidade de vacinações contra a meningite B e a ACWY."
Segundo ele, também existem vacinas que são tomadas quando criança e que dispensam uma segunda doses na vida adulta. "Quando nasce uma criança, ela toma a vacina pentavalente, que protege da difteria, do tétano, da coqueluche, da influenza tipo B e da hepatite B. Depois tem que tomar a vacina dupla, com uma dose de reforço aos 15 meses e outra aos quatro anos. Feito isso, é preciso um reforço de dez em dez anos. Essa é a vacinação de adulto, mas ele geralmente não acaba tomando, mas essas vacinas são necessárias para evitar o tétano acidental", explicou.
Crivellaro ressaltou, no entanto, que há um aumento de pessoas que integram o movimento antivacina no Brasil e no mundo todo. "Nossos pais e avós tinham diagnóstico de sarampo e rubéola aos montes. Quantas crianças foram a óbito ou tiveram sequelas por causa delas? Hoje vemos isso somente na literatura e isso tudo graças às políticas de vacinações", reforçou.
De acordo com o diretor, a vacinação em massa permitiu o fim dos casos de paralisia infantil. "No Paraná o ultimo caso foi registrado em 1984. Atualmente só dois países têm registros da doença: Afeganistão e Paquistão. No Brasil, ela foi controlada e eliminada."
Crivellaro disse ainda que com a cobertura vacinal há uma grande probabilidade de que em 2030 não haja mais casos de hepatite B com transmissão vertical de mãe para filho e quem tomou vacina não vai ter mais a doença. "A doença ainda existe, mas estamos controlando e passando pelo processo de eliminação. "Queremos erradicar a doença. Esperamos que o Brasil consiga e o Paraná também", projetou. (V.O.)


