São Paulo, 31 (AE) - O preço da safra nova de laranja, que começa a ser colhida dentro de um mês, ainda está indefinido mas a projeção de aumento da produção leva o professor Evaristo Marzabal Netto, da Esalq, a prever uma queda nos valores. As previsões da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Cítricos (Abecitrus) e do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria de Agricultura de São Paulo, indicam um aumento na produção para de 381 milhões a 388 milhões de caixas de 40,8 quilos.
"A produção maior do que no ano passado vai ter um impacto negativo na formação do preço para o produtor", disse ele. Os preços vão depender também da safra da Flórida (EUA), segundo maior estado produtor de laranja do mundo, atrás apenas do estado de São Paulo. "A previsão é de safra boa, mas ainda não foram contabilizados os impactos da seca e dos focos de incêndio em pomares da Flórida", disse ele.
A seca, que reduziu o volume de chuvas e a disponibilidade de água para irrigação, pode causar uma redução no rendimento da laranja. "O volume em caixas pode ser grande, mas o rendimento em suco pode ser menor", afirmou.
Em palestra prevista para a Semana da Citricultura, Marzabal Netto falará sobre a distribuição da renda do setor ao longo da cadeia. "Em 1998 foi exportado US$ 1,3 bilhão em suco de laranja, que foi repartido pelas poucas indústrias processadoras brasileiras", explica o professor.
Isso, segundo ele, contrasta com os ganhos do setor produtor, que somaram cerca de US$ 1 bilhão, repartido por centenas de produtores. Isso indica, de acordo com ele, uma concentração da renda da citricultura no setor agroindustrial.
O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus) , Ademerval Garcia, participará da Semana de Citricultura fazendo palestra na quinta-feira sobre as perspectivas para a produção e o mercado de laranja no médio e longo prazos. Para esta safra, na avaliação de Garcia, os preços da laranja ao produtor estarão pressionados pelos altos estoques de suco de laranja mantidos pelas indústrias.
Segundo ele, os estoques atuais são os maiores já registrados, de 230 mil toneladas de suco, contra uma média de 130 mil toneladas a 150 mil t. Além disso, ele afirma que os financiamentos pela Antecipação de Contratos de Câmbio (ACC), que tinham juros mais baratos para o exportador, pois o crédito podia ser captado no exterior, foram reduzidos e ficaram mais caros depois da desvalorização.
Com a menor credibilidade do Brasil no exterior, houve uma redução na nos financiamentos disponíveis e as taxas de juros desses financiamentos aumentaram. Os juros no merc ado interno também subiram. Segundo ele, esses juros são hoje de cerca de 16% ao ano, encarecendo a manutenção dos estoques. "Os juros do nosso concorrente na Flórida são de 3% ao ano", afirma.
Ele explica que em função desse juro, o custo da estocagem passa a ser de cerca de US$ 0,70 a caixa de laranja por ano, tendo como base US$ 1.000 por tonelada de suco. Por isso, Garcia considera que o produtor deve buscar a colocação de sua mercadoria no mercado interno, que pode pagar mais que a indústria.
"O problema para o produtor hoje é mais de colocação da mercadoria do que de preço", afirma. "O produtor está muito espremido, de um lado com o menor preço que a indústria pode pagar e, de outro, com os maiores custos da manutenção do pomar", diz Garcia.
O controle e a prevenção do cancro cítrico encareceram os custos de manutenção dos pomares, em função da necessidade de reestrut uração do setor, modificando, por exemplo, os métodos de colheita.

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