Brasília, 26 (AE) - A Marcha dos Cem Mil, realizada hoje pelos partidos de oposição e entidades sindicais em Brasília, não chegou à metade do número pretendido, mas transformou-se no maior ato contra o governo Fernando Henrique e disparou um alerta em toda a base governista. Segundo a Secretaria de Segurança do Distrito Federal, não havia mais do que 40 mil participantes, que chegaram em 1.101 ônibus ao Distrito Federal. No meio da tarde, a PM calculou 60 mil pessoas, enquanto a CUT anunciava 130 mil.
Mais do que essa polêmica, a mobilização organizada, pacífica e empolgada de milhares de pessoas de todos os cantos do País deixou os oposicionistas aliviados e os governistas preocupados. Para a oposição, a falta de incidentes vai estimular novas manifestações. Para o governo, a marcha foi o sinal definitivo de que chegou a hora de reagir.
Encerrada a marcha, as declarações dos governistas sobre o golpismo foram substituídas pelo reconhecimento de que a manifestação foi democrática, embora manipulada pelos partidos e com um número bem menor do que o anunciado. O presidente, segundo o porta-voz, não quis fazer nenhum pronunciamento, mas seus interlocutores deram a versão do governo.
"Não havia mais de 30 mil pessoas, mas para a democracia foi bom que se realizasse", disse o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). "É sempre uma lição." No mesmo tom, o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles (PPB), disse que "o governo precisa ver tudo isso com humildade e fazer uma reflexão".
O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga (PSDB), também reconheceu sinais positivos na marcha. "Foi um ato promovido por partidos políticos, mas terá efeito, aprofundando as etapas para o desenvolvimento", declarou. Já o secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), preferiu destacar o baixo número de participantes, embora também manifestasse preocupação. "A oposição mostrou que não tem eco na sociedade, mas qualquer manifestação preocupa e o governo vai reagir trabalhando", afirmou.
Para o comando da marcha, porém, o número de participantes foi menos importante do que a falta de ocorrências policiais. Uma equipe de 200 seguranças, auxiliada pelos próprios líderes oposicionistas encarregou-se de acalmar os manifestantes e impedir qualquer tumulto. Desde o início da manhã, os carros de som e os locutores do palanque principal, armando em frente do Congresso, orientavam as pessoas para evitar bebidas alcóolicas e não aceitar provocações. Quando alguns militantes mais empolgados entraram no fosso da entrada do Congresso, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) foi até lá para retirá-los da água.
Em nenhum momento foi preciso intervenção policial e os jardins dos ministérios ficaram intactos. "A oposição precisava dar uma prova de maturidade, de paz e de ordem", comemorou o presidente nacional do PT, José Dirceu, que durante todo o dia manteve contato com autoridades do governo e do Distrito Federal.
"Conseguimos dar cara, voz e a nossa bandeira às pesquisas que mostram a impopularidade de Fernando Henrique", festejou o líder do PT na Câmara, José Genoíno. Nos seus discursos e entrevistas, os principais líderes políticos da marcha, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Leonel Brizola (PDT), previram que ainda haverá muitos outros atos contra o governo.
"Isso é apenas o começo", discursou Lula. "Agora, vamos fazer como o Corinthians e arrasar cada vez mais." Brizola também foi na mesma linha. "Esta grande caminhada só vai parar no dia em que tivermos um governo em que o povo confie." Também entusiasmado, José Dirceu anunciou um calendário de pressões sobre o governo para as próximas semanas.
Entretanto, para o cientista político Jairo Nicolau, o próximo lance agora deve ser dado pelo outro lado. "Soou o gongo para o governo", resumiu. No seu entender, a marcha foi o maior de uma série de golpes que o governo levou nos últimos meses. "Agora, cabe ao governo respirar e tomar a iniciativa", avalia. "Não se pode ficar nas cordas o tempo todo, sob o risco de nocaute."
Embora considere a marcha bem sucedida, Nicolau pondera que esse foi o maior cartucho que a oposição tinha. "Ele foi bem queimado, mas não há muito mais coisas que possam ser feitas agora pela oposição", ponderou. "A menos, é claro, que o governo continue sem nenhuma reação."
De acordo com sua anállise, a marcha fecha um ciclo de pressões que enfraqueceram o governo, mas não representa uma vitória dos seus organizadores. "Esse desgaste não é todo transferível nem a transferência é só para essa oposição", disseu. "Isso pode beneficiar, por exemplo, o Ciro Gomes." Nicolau só acha irônico que os mesmos defensores do presidencialismo, como Lula e Brizola, queiram agora derrubar o presidente. "Eles deveriam saber que, nesse sistema, é preciso esperar que o governo acabe", observou. "Se estivéssemos no parlamentarismo, é muito provável que o governo já tivesse caído."

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