Maílson diz que divergência entre Fazenda e BC é insuperável
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de fevereiro de 1999
Por Márcia de Chiara 
São Paulo, 02 (AE) - A troca de comando no Banco Central (BC), antes mesmo de Francisco Lopes ter sido empossado na presidência da instituição, reflete uma divergência insuperável entre o Ministério da Fazenda e a autoridade monetária, segundo avaliação do ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. Na opinião dele, o País regrediu, ao retomar a prática da dança das cadeiras no BC. O caminho perseguido, argumenta, deveria ser o de consolidar a estabilidade e a autonomia da autoridade monetária, como ocorre em outras economias. "Essa idéia é muito ruim para o futuro."
Apesar da forma como foi feita a substituição, os economistas consultados pelo Estado avaliaram positivamente a nomeação de Fraga. "O mercado achava que faltava uma operação melhor no dia-a-dia do câmbio e dos juros e a vinda de uma pessoa com experiência no Brasil e no exterior, como a de Fraga, dá mais tranquilidade", ressalta o ex-ministro.
Para o presidente do Conselho Federal de Economia, o economista Antônio Corrêa de Lacerda, as mudanças no BC abrem espaço, no médio prazo, para a queda da taxa de juros e a perspectiva de que a cotação do dólar flutue numa faixa mais estreita em relação à registrada nos últimos dias.
Lacerda argumenta que a atuação do BC na sexta-feira (29), sob o comando de Lopes, foi tímida, o que facilitou a especulação no mercado. Agora, com o novo presidente, que é menos teórico e mais operador, os agentes econômicos deverão testar menos os limite de flutuação do câmbio. Com isso, a volatilidade deverá diminuir e as perspectivas de redução dos juros no médio prazo aumentam.
"Os juros devem continuar ainda mais altos em fevereiro", diz o economista da M.A. Consultores, Flávio Nolasco. Para ele, no curto prazo, as taxas deverão ficar elevadas para consolidar o novo modelo do câmbio. Uma redução deverá ocorrer a partir de março, quando o mercado estiver mais calmo. Até lá, o lado real da economia estará em melhores condições e o País voltará a atrair o investimento estrangeiro.
Na opinião do economista-chefe do BMC, Marcelo Allain, as taxas de juros atingiram o limite de alta. O nível atual, explica, torna evidente uma disfunção grave da economia brasileira. É que 70% dos títulos do governo são atrelados aos juros, determinados por ele próprio. Quando o governo eleva as taxas, ele acaba aumentando as despesas financeiras para remunerar esses títulos e cresce a desconfiança do mercado com relação à capacidade de honrar esses compromissos. "Portanto, não faria sentido aumentar os juros."
Para o economista-chefe do Llodys bank, Odair Abate, as mudanças são bem aceitas porque, depois de quatro anos de presidentes com perfil acadêmico, Fraga representa a volta de um profissional de mercado no comando do BC. Além disso, ele tem credibilidade no mercado interno e externo.


