Uma triste constatação abala a imagem da mãe como alguém capaz de fazer tudo pelo bem dos filhos: ela é responsável pela continuidade de grande parte dos casos de abuso sexual cometidos contra crianças e adolescentes. É o que a experiência tem mostrado aos órgãos que lidam com o problema, como Ministério Público, Conselho Tutelar e Secretaria de Assistência Social. Ontem, foi encerrada em Londrina a 3 Semana Municipal de Enfrentamento ao Abuso Sexual e Exploração Sexual Infanto-Juvenil.
Dados do Programa Sentinela, responsável pelo atendimento de menores vítimas de abuso em Londrina, revelam que a maioria desses casos - cerca de 70 dentre os 115 atendidos atualmente - ocorre no ambiente familiar. Se nesse contexto é raro encontrar a mãe no papel de agressora, muito mais comum é descobrir que ela é omissa quando o abusador é seu companheiro, seja pai da criança ou não. Muitas vezes, ela tem conhecimento da violência que a filha ou filho está sofrendo, mas não denuncia nem toma qualquer providência.
''As mães se omitem por absoluta dependência do companheiro, seja psicológica, material ou emocional'', afirma a assessora jurídica da Promotoria de Infância e Juventude de Londrina, Carolina de Ramos Sodré. Ela observa que a mulher alcançou grande independência na teoria, inclusive diante das leis, mas que culturalmente ainda é muito submissa ao marido. ''Em muitos casos, ela não denuncia porque tem medo de perder o sustento, ou porque acredita que precisa ter um homem ao seu lado a qualquer custo, mesmo que ele esteja abusando dos filhos'', especifica.
A assessora do MP acredita que a omissão não pode ser justificada por uma suposta ''ignorância dos fatos'' pela mãe. ''É praticamente impossível a mãe não ter conhecimento de que o abuso esteja ocorrendo, principalmente se ela assume seu papel, acompanhando a vida do filho em todas as etapas, dialogando com ele, observando-o. Além disso, ela pode não se aperceber do filho, mas com certeza percebe condutas diferentes no seu companheiro'', explica. A coordenadora interina do programa Sentinela, Sílvia Vicentin, vai além: ''A mãe pode ver a filha como uma concorrente. Ela nota, mas não quer admitir''.
Um dos caminhos apontados para reverter o quadro é o acompanhamento psicológico não só da criança ou adolescente vítima de abuso, mas também da mãe. Em Londrina, esse tipo de trabalho é realizado pela equipe do Sentinela. ''Muitas vezes a mãe omissa é produto de um meio desestruturado, e pode já ter sido vítima de abuso também. É necessário um trabalho complexo, demorado, mas se essa mãe aderir, é possível dar condições a ela para que se posicione face ao problema, afastando o agressor e dando prevalência ao filho'', sustenta Carolina.

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