Mães impedidas de trabalhar fora
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terça-feira, 14 de setembro de 2004
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Para muitas mães, a falta de creches significa a impossibilidade de trabalhar fora e ajudar no sustento da família. Marcia Daniele Morato, de 20 anos, conta que há mais de um ano tenta conseguir vaga para os filhos de dois e três anos. Ela mora no Jardim São Jorge (Zona Norte), onde a única creche existente só aceita crianças que já deixaram a fralda. ''Eles também exigem que a gente comprove que está trabalhando, mas para arrumar emprego eu tenho que ter onde deixar meus filhos.''
Como o marido de Marcia está desempregado, de vez em quando ela arrisca sair de casa para vender roupas. E aí o jeito é levar o caçula no carrinho, ''embaixo de sol e chuva''. Nestas ocasiões a filha maior fica com alguma amiga. ''No Parigot de Souza (bairro vizinho) tem uma creche que aceita bebês, mas além de ser muito longe, eu também não consegui vaga'', afirma.
Maria Helena Damacena, de 27 anos, grávida de oito meses, está preocupada. ''Eu já tenho três filhos e meu marido saiu de casa. Antes de ficar grávida catava papel, mas agora não dá mais, por causa da barriga. Meus filhos mais velhos estudam, mas eu não sei como vou sustentar todos depois que o nenê nascer. Não vou ter condições de pagar alguém para ficar com ele.''
A adolescente E. C. R., de 15 anos, ainda não tem filhos, mas já enfrenta as consequências do número insuficiente de creches. Todos os dias, ela passa a tarde cuidando de dois irmãos e dois sobrinhos pequenos, para que a irmã e a mãe possam trabalhar. Frequentemente é requisitada para ficar com as crianças também no período da manhã, e as faltas nas aulas da 8 série estão se acumulando. ''Faz tempo que minha irmã está tentando vaga na creche, mas não consegue'', resigna-se.
O promotor da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Tiago de Oliveira Gerardi, afirma que o Ministério Público está acompanhando de perto o problema da falta de creches, mas que as ações ficam limitadas pela falta de recursos. ''Já entramos com uma ação civil pública há cerca de quatro anos exigindo vagas em creches para todas as crianças do município, mas é difícil porque se multarmos o poder público pelo não cumprimento, o dinheiro terá que sair dos cofres públicos'', argumenta o promotor.
Segundo Gerardi, na época em que a ação foi proposta, a demanda era de aproximadamente 10 mil crianças. ''Teria que fazer um levantamento para ver como está a situação hoje.'' O promotor informa ainda que o município, ''na medida do possível'', tem demonstrado boa-vontade em suprir a necessidade de vagas, firmando convênios com entidades e construindo algumas creches.


