MÃES HUMILHADAS - Muito mais que as dores do parto
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domingo, 27 de março de 2011
Silvana Leão <br> <br> Reportagem Local 
No ano passado, quando a tradutora Anita Ventura Frazillio de Souza, de Londrina, decidiu que sua filha nasceria de parto natural, enfrentou várias barreiras. A primeira delas veio da própria médica que a acompanhava: logo de cara, ao saber da intenção de sua paciente, ela avisou que não fazia este tipo de parto, apenas cesárea e, mesmo assim, com dia e hora marcados. A futura mamãe só achou o médico ''certo'' no oitavo mês de gestação, mas ainda teria que enfrentar o despreparo da equipe de enfermagem do hospital antes de ter sua pequena Sarah nos braços.
Assim como Anita, milhares de outras brasileiras sofrem mais que dores durante o trabalho de parto. Pesquisa da Fundação Perseu Abramo revelou que 25% das mulheres entrevistadas foram submetidas a algum tipo de violência durante o nascimento dos filhos, como exame de toque de forma dolorosa e humilhações verbais. Entre os despropósitos mais ouvidos estão as frases ''Não chora que ano que vem você está aqui de novo'' e ''Na hora de fazer você não chorou, não chamou a mamãe, por que está chorando agora?''.
A maioria das mulheres entrevistadas (68%) teve filhos na rede pública. Entre as que afirmaram ter sofrido alguma violência no atendimento ao parto, 10% disseram ter sido submetidas a exame de toque doloroso. A mesma porcentagem informou que o serviço de enfermagem negou ou deixou de oferecer algum tipo de alívio para a dor. Já 9% das mulheres informaram que alguém gritou com elas no momento do parto e que não foram informadas sobre os procedimentos que estavam sendo realizados.
No caso de Anita, que teve o parto realizado por meio de plano de saúde, uma série de fatores poderia ter transformado a experiência do nascimento da primeira filha em algo traumatizante. E só não foi porque a tradutora se informou e se preparou durante a gestação. ''Percebi que teria que lutar para conseguir o parto normal.''
Ela conta que a bolsa rompeu num final de tarde e as contrações não demoraram a aparecer. ''Quando cheguei ao hospital, as enfermeiras logo de cara quiseram me preparar para a cesárea. Quando falei da intenção de fazer parto normal, me olhavam com espanto.''
Anita relata uma das situações que expuseram a falta de preparo da equipe para acompanhar o nascimento natural do bebê: ''Houve um momento em que eu estava em plena contração e tinha duas atendentes ao meu lado, uma tentando encontrar uma veia para aplicar o soro e outra perguntando meu endereço para preencher a ficha de internamento. Resultado: fiquei supernervosa, mal conseguia lembrar o endereço de casa e ainda ganhei um hematoma no braço.''
Logo depois, Anita, por conta própria, encontrou uma posição mais confortável para enfrentar as contrações, mas foi forçada por uma das atendentes a se deitar, mesmo a contragosto. ''Não esqueço daquela voz me dizendo: 'Deita, queridinha', e eu sabendo que assim o desconforto ia ser bem maior. Elas não se dão nem ao trabalho de chamar a gente pelo nome''.
Para a tradutora, ficou a sensação de que a equipe de enfermagem do hospital - que atende somente pela rede particular e convênios - estava menos preparada para trabalhar em um parto que não fosse uma cesariana do que atendê-la após o nascimento de Sarah. Isso porque, depois do parto, tudo foi mais tranquilo. ''Elas incentivaram bastante o aleitamento'', reconhece.


