São Paulo, 02 (AE) - Nas mãos, uma Bíblia; na sacola de plástico, um pacote de bolacha salgada, um iogurte de morango com dois canudinhos, um tubo de pasta de dente e um sabonete. A empregada doméstica Vera Maria da Silva, de 44 anos, foi hoje ao Cadeião de Pinheiros, em São Paulo, visitar o filho A.P.S., de 15 anos, interno da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem). "Eu preciso saber dele", dizia a mãe, repetidamente.
A.P.S. é um dos muitos garotos transferidos para o Cadeião e para as unidades do Tatuapé desde que o Complexo Imigrantes foi desativado. Na quinta-feira, Vera, moradora da periferia de Santo André, esteve na porta da Imigrantes na tentativa de ver o filho. Voltou na quinta-feira, em vão. No sábado, não pôde ir - faltou dinheiro para a condução. Anteontem
ligou para a Febem e soube que ele estava no Cadeião.
"Será que ele está machucado?", dizia hoje, depois de fornecer ao vigilante o nome do filho, preso depois que começou a andar em "más companhias" e passou a roubar telefones celulares nos semáforos. Enquanto aguardava notícias na frente da penitenciária, Vera, separada do marido há dez anos e mãe de mais três filhos - um de 11 anos e dois casados - sentia-se mais esperançosa. "Não sei as regras daqui, mas deve ser melhor que a Febem."
No quadrilátero do Tatuapé, apenas as mães que não visitaram seus filhos no sábado puderam fazê-lo hoje. Era o caso da dona de casa Alice Dias de Oliveira, de 47 anos. Na véspera, seu filho O.D.O. ligou para casa e deixou-lhe um recado dando conta de seu paradeiro, o que alegrou Alice. "Aqui parece mais calmo", disse, enquanto aguardava a assistente social para acompanhá-la.
Via-crúcis - Raimunda Gomes, mãe de V.S.R., de 17 anos, soube que o filho estava no Cadeião de Pinheiros. Moradora de Guarulhos, na Grande São Paulo, ela pegou um ônibus e depois de descer no ponto final foi informada de que em cinco minutos a pé estaria no Cadeião. Mas sua via-crúcis estava só começando e teve de andar uma hora e meia. O jeito foi pegar uma carona. Entrou na penitenciária, viu vários meninos jogando bola e assistindo à TV, mas seu filho não estava lá e sim no Complexo Tatuapé.
"A cabeça da gente já está a mil e ainda não dão uma resposta certa", reclamou Raimunda. Lá, finalmente, pôde revê-lo. "Graças a Deus, acabou o inferno", disse, referindo-se à demolição do Complexo Imigrantes.

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