Mães da Vida valoriza infectatos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de outubro de 2003
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Projeto desenvolvido pela organização não-governamental (ONG) Associação Paranaense Alegria de Viver (APAV) tenta resgatar a auto-estima e melhorar a qualidade de vida de mães portadoras do vírus HIV que contaminaram seus filhos. O sentimento de culpa que as acompanha e o stress decorrente dessas sensações faz com que, na maioria dos casos, as mães soropositivas desistam de lutar contra a doença.
Os coordenadores do projeto Mães da Vida, psicólogos Djalma Lobo Júnior e Inara Silva Rodrigues, contam que o trabalho começou há três anos, depois que os voluntários da ONG perceberam que a doação de cestas básicas e de medicamentos para famílias com crianças portadoras do vírus da Aids não resolvia o problema. Era preciso algo mais para mudar a realidade dessas famílias, onde a mulher acaba sendo o ''sustentáculo emocional''.
É provado, cientificamente, que as mulheres adoecem mais rápido do que os homens. Está comprovado, também, que o stress afeta o sistema imunológico de qualquer pessoa. Em pessoas que já têm imunidade mais baixa por conta da Aids, o stress acaba agravando esse quadro e se tornando um facilitador para a entrada das infecções oportunistas. Pesquisas já demonstraram que pessoas portadoras do vírus HIV em situação de stress adoecem duas ou três vezes mais rápido do que as menos estressadas.
Hoje, a APAV tem 80 famílias cadastradas. Cerca de 100 mães já foram assistidas pela ONG, desde o início do projeto, há três anos. Inicialmente, a maioria das pessoas encaminhadas para o projeto era vinda de famílias de baixa renda, moradores de favelas ou de áreas de invasão, onde os próprios padrões familiares comprometem uma formação mais sólida. Atualmente, o grupo é mais heterogêneo e envolve, inclusive, alguns homens que já perderam suas companheiras e criam os filhos soropositivos.
O Mães da Vida consiste em encontros semanais, onde são trabalhados, além da auto-estima, valores como família, saúde, relacionamentos, objetivos de vida. Nas terças-feiras, é iniciado o trabalho com os grupos novos e, às quintas-feiras, oficinas de trabalhos manuais e dinâmicas de grupo complementam o trabalho.
Lobo Júnior explica que o projeto é divido em 12 etapas. Primeiro as mães trabalham o auto-conhecimento. Em seguida, a beleza física e interior. Numa terceira fase, a comunicação: qual a imagem que ela tem da doença e como vê a imagem que é passada pela mídia. A família e os padrões familiares entram na quarta etapa do projeto. O psicólogo acredita que a partir da quinta etapa, onde é trabalhada com mais ênfase a auto-estima, as mulheres ''começam a ver que viver vale à pena''. Saúde e medicação; a escolha dos relacionamentos (sexo e sexualidade); ''a morte em vida da pessoa com HIV''; os objetivos de vida; emprego e empregabilidade; direitos e deveres; e o relacionamento com o mundo são trabalhados nas etapas seguintes do projeto que dura três meses.
Cinco psicólogos compõem a equipe do Mães da Vida. Dois deles trabalham com os adultos e os outros três se encarregam do acompanhamento dos filhos dos participantes do projeto. As crianças ficam na sede da APAV durante o período dos encontros de mães.
A avaliação de Lobo Júnior e Inara sobre o resultado do trabalho é que as mães soropositivas passam a se dar o direito de viver, sentem-se mais capazes de reconstruir sua vida emocional, afetiva e profissional, passam a cuidar melhor de si mesmas e de seus filhos.


