Mães choram ao contar história da adoção dos filhos
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segunda-feira, 10 de maio de 1999
Por Arnaldo Galvão 
Brasília, 11 (AE) - As mães Maria Aparecida Salles, de 39 anos, e Cristiane Lopes, de 23, choraram hoje, quando contaram a história da perda dos filhos delas em adoções, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário no Senado.Os senadores que integram a CPI ouviram os detalhes da mesma versão: foram enganadas pelos auxiliares do juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, do Anexo da Infância e Juventude de Jundiaí, no interior de São Paulo.
Camila, Rafael e Aline - filhos de Maria Aparecida - estão na Itália, vivendo juntos com os pais adotivos. Cristiane não sabe onde está Leonardo, que, segundo ela, foi arrancado do convívio materno quando ainda era amamentado, no Hospital São Vicente de Paula. "Fiquei com ele apenas seis horas; perdi meu filho um dia depois do parto", disse Cristiane. Ferreira defende-se das acusações de Maria Aparecida e Cristiane, dizendo que são apenas casos de arrependimento. "Não há nenhuma irregularidade nesses processos e elas foram defendidas por seus advogados", disse o juiz. Ele explica que, no caso de Maria Aparecida, o Tribunal de Justiça (TJ) do Estado de São Paulo confirmou o procedimento dele. O pedido de guarda das três crianças, feito pela família dela, foi negado. "O ambiente era inadequado", disse o magistrado. Sobre o processo de quebra do pátrio poder de Cristiane, Ferreira afirmou que ela tinha advogado, mas ele sequer recorreu ao tribunal.
Cristiane contou que escondeu a gravidez da família e pediu ajuda das assistentes sociais do hospital para dizer aos pais, em 24 de novembro de 1997, que o filho tinha nascido. Ela tinha medo das consequências, mas, em nenhum momento, pensou em dar Leonardo para outro casal. "Fiquei com muito sono depois que me aplicaram uma injeção e acabei assinando um papel trazido por uma funcionária do fórum", disse a mãe. Ela afirmou que somente veio a saber o conteúdo do papel três meses depois, informada pelo advogado. A mãe de Cristiane teria sido procurada por funcionários do juiz e, como não sabia da gravidez da filha, disse que Cristiane não tinha condições de ser mãe.
Ela disse que somente conseguiu falar com Ferreira depois de muitas tentativas. Ele teria sido impaciente. Segundo essa versão, "gesticulando e gritando", o juiz teria dito que "pobreza é doença" e "seu leite não vai fazer falta".
A história de Maria Aparecida também reúne as mesmas características: carência e falta de assistência jurídica. Ela diz que perdeu três filhos quando atendeu a uma intimação para comparecer ao fórum. Uma denúncia anônima afirmava que eles viviam em lugar inadequado. "Os três moravam com meu pai nessa época, mas, apesar de ser uma casa humilde, tinham dignidade", explica a mãe, dizendo que o mais novo frequentava uma creche e os outros iam à escola.
Segundo Maria Aparecida, ela nunca viu o juiz. Os funcionários do juiz teriam dito que as crianças ficariam numa casa transitória, mas que ela poderia as recuperar. "Tentaram convencer-me a autorizar uma adoção e disseram que eles poderiam ficar muito bem na Itália ou na Suíça porque têm olhos claros", disse. Ela confessa que acabou assinando um papel, mas que não sabia exatamente o conteúdo. "Tenho cinco filhos; se não pudesse cuidar deles, teria doado todos." Maria Aparecida disse aos senadores que tem medo de ir à Itália visitar os três filhos: "Posso ser presa e não tenho dinheiro para pagar advogado."


