Mãe, você não morreu, exclamou Aline, de 6 anos
Edson MazzettoDo açougue de Geneci Rucker, não sobrou tijolo sobre tijoloGeneci Rucker, 28 anos, sozinha, era dona de um açougue, numa casa de alvenaria. Ela morava nos fundos. Não sobrou tijolo sobre tijolo. Geneci recebeu apenas ferimentos no nariz, porque conseguiu jogar-se atrás de uma geladeira, único móvel que permaneceu em pé. Sozinha, ela dependia do açougue para sobreviver. Trabalho duro desde menina, e em alguns minutos fiquei sem nada, diz.
Assim como outras pessoas, ela procurou socorro na casa de parentes, na cidade vizinha de Laranjeiras do Sul - quem não têm parentes nesta cidade foi abrigada num ginásio de esportes e em escolas. Recomeçar a vida, reabrir o açougue? Geneci Rucker diz que por enquanto não tem cabeça para pensar. Não sei o que fazer. Só tenho um consolo, o de ter sobrevivido.
Edson MazzettoA casa de Neusa Langer foi a única que restou no quarteirão
Mesmo consolo tem Tuani Aline, 6 anos, filha de Marli dos Santos Boeira. A menina estava na escola naquela tarde, e quando encontrou a mãe, exclamou, chorando: Mãe, você não morreu!. Neusa Langer, 30 anos, também acha que foi um milagre sua filha não ter morrido. Giana, de 1 ano e 9 meses de idade, estava em casa, com uma cunhada de Neusa, que trabalhava em uma mercearia - o marido trabalha na Prefeitura.
A mercearia estava a 300 metros da casa e, quando tudo aconteceu, a mulher desesperou-se, porque não havia como correr para socorrer a filha. Voava pau e outras coisas por todos os lados, não tinha como sair, lembra. Quando acalmou o tempo, Neusa correu, e então viu o primeiro milagre: sua casa foi a única que ficou em pé no quarteirão.
O telhado foi arrancado e as paredes, de madeira, abaladas. Entrando na casa, ela viu que a menina e a cunhada estavam no banheiro. As duas haviam esperado o furacão passar deitadas no piso do banheiro. Porém, o drama não passou. As instalações da mercearia foram destruídas e não há previsão de quando ela voltará a funcionar - está desempregada. Neusa ganhava R$ 195,00 por mês, mais do que o marido (R$ 185,00), que teve o emprego mantido. Mas com esse dinheiro não sei como vai ser, diz Neusa.
Edson MazzettoDesolaçãoMeneguzzo e os restos de danceteria. Furacão tirou emprego e negócios de moradores
José Meneguzzo, 28 anos, uma filha, não era assalariado, mas também teme o futuro, assim como os demais comerciantes da cidade. Ele tinha uma pequena danceteria (numa construção de dois pisos). Não sobrou nada dela.
O predinho tinha sido construído há três anos. Nos finais de semana, a pista de dança ficava lotada por cerca de 100 frequentadores. Na parte de baixo, fica a moradia, que teve apenas algumas paredes trincadas, mas permaneceu habitável. Acho que não tem como recomeçar o negócio. Não dá ânimo de fazer nada. Viver do quê?
Por enquanto, José e a filha terão que depender do salário da esposa, Silvana, 24 anos, professora municipal que ganha R$ 250,00 ao mês. Não muito longe da cidade, o agricultor Angelo Gianollo, 60 anos, diz que perdeu a força para tentar recomeçar. Trabalhei a vida toda, dava gosto ver as coisas, tudo pobre mas arrumadinho, e agora tudo acabado.





