Uma semana depois de ser presa por não depositar R$ 50 mensais da pensão alimentícia para o filho H.E.C.S, de três anos, a desempregada Inês de Fátima Carnavali, 27 anos, luta agora para que a vida volte à normalidade. Mas tem medo que o estigma da prisão a impeça de conseguir um emprego. ‘‘Eu posso até passar fome mas nunca roubei nada. Só que as pessoas ficam comentando e tem alguns que são malvados mesmo. Meus filhos estão ouvindo um monte de coisas na escola’’, lamentou. Inês disse que, antes de ser presa, tinha conversado com um ex-patrão para aceitá-la em um emprego. ‘‘Será que agora ele vai me aceitar?’’.
Inês foi presa na quinta-feira, dia 21, e só foi solta na segunda, dia 25, depois que conseguiu R$ 180 – o equivalente a três meses de pensão – para depositar em juízo. Na sexta-feira anterior, o segurança Cláudio Celino dos Santos, pai e responsável por H.E.C.S, havia depositado R$ 350,00 na conta do menino para evitar que Inês permanecesse presa durante o final de semana. Mas não juntou o comprovante do depósito aos autos do processo, o que não caracterizou o pagamento. O advogado de Inês, Everson André Xavier, só conseguiu que o cartório perdoasse as dívidas das custas – cerca de R$ 350 – na segunda-feira.
Com medo do futuro, Inês não sabe o que vai fazer se não encontrar um emprego logo. Apesar de ter voltado a viver com o pai dos três filhos – depois do período de separação, quando se envolveu com Santos e teve H.E.C.S. –, apenas ele está empregado como motorista e recebe cerca de R$ 380 por mês. Na pequena casa – de um quarto –, no Conjunto Avelino Vieira (zona oeste de Londrina), vivem o casal, os filhos, uma cunhada e seu filho de seis anos, ambos deficientes e sem renda alguma. Duas das crianças recebem o Bolsa-Escola Federal (R$ 30) mais o Vale Gás (R$ 15 a cada dois meses).
O dinheiro não é suficiente para alimentos, prestação da casa (R$ 100 por mês e em atraso há três), IPTU (uma dívida de R$ 700 desde 1995), água e luz. A dívida da família com a Sanepar já contabiliza mais de R$ 640. ‘‘Minha luz está para ser cortada e eu não vou poder pagar. Vamos viver à luz de vela’’, disse, conformada. Segundo ela, desde de dezembro, quando perdeu o emprego por causa de uma paralisia facial, a conta de alimentos no mercadinho ainda não foi posta em dia. ‘‘Para me tirar da cadeia, meu marido pegou um adiantamento com o patrão, um dinheiro que iria pagar o mercadinho’’, contou. Ela, porém, garante que os filhos nunca vão passar fome. ‘‘Eu me humilho, peço comida para os vizinhos, mas fome meus filhos não passam’’.
Como que para comprovar a dedicação da mãe, os três filhos – Odair, 9 anos, Fernanda, 7, e Amanda, 5 – não escondem o amor que sentem por Inês. Estão sempre abraçando e beijando a mãe, e atendem quando quando ela os repreende sem erger a voz. O sobrinho, José Augusto, 6 anos, também é tratado como filho e retribui o carinho. Todas as crianças são bonitas e, apesar da pobreza da casa e das roupas humildes, transmitem ao observador aquele ar de saúde e alegria, resultado da atenção e cuidados dos pais. A casa, embora pequena, feia e desgastada pelo tempo, é impecavelmente limpa.
Inês só quer duas coisas na vida: arrumar um emprego e esquecer os dias de prisão. ‘‘Apesar de ter sido tratada com respeito por todos, inclusive os presos, nunca mais quero ver aquele local de novo. Quero trabalhar e nunca mais atrasar a pensão de H.’’.

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