São Paulo- Quando Santinha procurava a mãe e, joelhos esfolados pelas travessuras de criança, dizia não sentir dor, via o mesmo gesto. ''Ela coçava a cabeça. Aprendi que significava que ela estava diante de um grande problema'', conta a mineira de 69 anos, internada pela primeira vez há 53, na ''época da compulsória''.
Diante da doença da filha, a mãe fugiu. ''Ela me largou lá em casa, sem comida, sem água'', recorda Maria Conceição dos Santos, a Santinha, que teve as pernas amputadas e dedos das mãos mutilados. Ela vive no Hospital Estadual Tavares Macedo, em Itaboraí (RJ), um dos 30 hospitais colônias de ex-doentes de hanseníase.
O preconceito, segundo ela, impede que pacientes saiam até hoje. ''Somos como mortos-vivos. Ninguém quer chegar perto, dar emprego. Pura ignorância'', desabafa.
Internada aos 16, em Ubá (MG), casou-se com outro interno. Ela e Ataíde de Souza, de 73 anos, estão prestes a completar 50 anos de casados. Se no passado Ataíde deixou tudo para seguir com Santinha para o Tavares Macedo, para amputar uma perna, há três meses foi ela que deixou uma casa da colônia para morar num cômodo ao lado da enfermaria, onde o marido está internado, com problemas renais.
Nas paredes do pequeno cômodo, há fotografias do filho e do neto. ''Vêm nos visitar uma vez por mês, pois moram longe'', justifica ela. (R.W./A.E.)

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