Mãe e filha fizeram mais de 200 partos
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quarta-feira, 28 de maio de 2003
Denise Angelo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Dolíria de Matos, 61 anos, já perdeu as contas de quantas crianças ela ajudou a trazer ao mundo. Parteira há 29 anos, é ela quem socorre as grávidas do município de Dr. Ulysses, na Região Metropolitana de Curitiba. Na cidade não há hospital e a grande maioria dos partos acaba sendo feitos em casa.
''A primeira vez que me chamaram para ajudar num parto era noite e estava chovendo muito. Quando eu cheguei, o bebê já tinha nascido. Na segunda vez foi mais difícil, a parteira que estava cuidando da mãe já tinha até desistido. Eu consegui dar três tapinhas na criança e assim ela nasceu. Depois disso não parei mais de ajudar as mulheres'', conta.
O trabalho é feito com tanto amor que acabou passando de mãe para filha. Miraíta do Carmo Matos, 41 anos, é prova disso. Ela está seguindo os passos de sua mãe e já realizou mais de 30 partos. Ainda está longe da marca da sua mãe mais de 200 partos nos últimos 15 anos mas a eficiência é a mesma. Elas não lembram de ter perdido alguma mãe ou criança.
Muitas mulheres acabam enfrentando o parto em casa por falta de condições de serem atendidas em uma maternidade ou até mesmo porque não dá tempo de chegar no hospital. O último levantamento da Secretaria de Estado da Saúde é de 2001 e mostra que naquele ano, 802 crianças nasceram em suas próprias casas e outras 58 em locais como os carros que levavam as parturientes até o hospital mais próximo. No ano passado, em Curitiba, foram feitos 119 partos fora das maternidades. Destes, 96 foram em casa e 23 em algum meio de transporte.
A médica Raquel Ohlig, coordenadora do programa Mãe Curitibana, conta que a maioria dos casos de crianças que ainda nascem fora da maternidade normalmente é de mães adolescentes, que escondem a gravidez dos pais até o final. Também existem casos de mães muito pobres, que não têm acesso aos serviços de saúde, ou de mães de ''primeira viagem'', que não identificam os sinais de que a hora do bebê nascer está chegando. Nesses casos, segundo ela, o bebê nasce no caminho de casa para a maternidade.
A orientação da médica é para que as grávidas fiquem atentas a sintomas como dor nas costas e na barriga, e perda de líquido pela vagina. Se a mãe tiver febre, sangramento vaginal, manchas na visão ou se o bebê parar de se mexer por mais de um dia, a mãe precisa procurar um serviço de saúde, mesmo que ainda falte algum tempo para completar os nove meses de gestação.
O programa Mãe Curitibana foi implantado em 1999. O objetivo é vincular a mãe a uma maternidade, desde o início da gestação para garantir atendimento na hora do parto. Antes da implantação do programa, a média anual de nascimento de crianças fora das maternidades em Curitiba era de aproximadamente 1,2 mil, ou seja, 4% do total de crianças nascidas vivas na Capital. As 192 crianças que nasceram nessas condições no ano passado, representam apenas 0,7% do total de nascidos vivos. Com a implantação do programa, em três anos o número de crianças curitibanas que nascem fora das maternidades caiu 90%.


