O ar quente e parado ardia na pele e acentuava o luto nos rostos das dezenas de pessoas - familiares e amigos - que foram se despedir de Nilza Ribeiro dos Santos, 29 anos, e o filho dela, Mateus Alves dos Santos, de cinco meses. Os dois foram vítimas da violenta crueldade que assola as grandes metrópoles e respinga em gente honesta, como ela, que buscava a felicidade. Na sala, os caixões lado a lado tornavam a despedida ainda mais difícil.

Coube ao pai e avô, Amilton Alves dos Santos, 56, a tarefa mais sacrificada. Havia dois meses que os dois não se encontravam pessoalmente. No domingo, ele teve que sair de Tamarana (Norte do Estado) distante cerca de 500 km do local da chacina com a incumbência de reconhecer o corpo da filha. Ela e o neto foram atingidos durante troca de tiros entre traficantes. ''Fiz isso por ela'', falou orgulhoso.

Nilza era a segunda filha entre os cinco irmãos. Cresceu cheia de sonhos em Tamarana, se formou em tecnologia de alimentos e, desde 1998, morava com a irmã mais velha em Curitiba. Na capital, conheceu o marido, cuja família mora na Vila Icaraí. Com ele teve dois filhos: uma menina de oito anos e Mateus, o mais novo tesouro da casa. ''Ela estava muito feliz'', lembrou o pai.

O sonho de garantir um futuro brilhante para os filhos foi abreviado na noite de sábado, quando o casal e o filho pequeno deixavam um culto religioso na Vila Icaraí, onde estavam acostumados a frequentar. O carro em que estavam ficou no meio do fogo cruzado entre bandidos. ''Contei 30 buracos de bala na lataria. Minha filha levou um tiro na nuca e morreu ali mesmo. Meu neto, que estava no colo dela, foi socorrido mas não resistiu'', lamentou o pai.

Chocados, amigos do antigo curso técnico compareceram para a última homenagem. Edivani Ribeiro dos Santos levou as cartas ingênuas trocadas com a amiga durante as aulas. ''Tristeza não era com ela'', emocionou-se. Colega desde a adolescência, Leda Maria Araújo, estava inconformada. ''Vai fazer muita falta para a gente.'' Outra amiga, Alessandra Gomes resumiu a perda: ''o mundo seria um lugar muito melhor se todos fossem iguais a ela''.

No final da tarde, mãe e filho foram sepultados lado a lado no jazigo da família, no Cemitério Municipal de Tamarana.

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