Mãe diz que saque foi para os filhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de agosto de 1997
Agência Folha 
Ex-empregada doméstica, mãe de cinco filhos e desquitada, D., 37, cujo nome não quer ver publicado, bloqueou a rodovia BR-163 e ajudou a saquear, ou recuperar, na linguagem do MST, cerca de 80 toneladas de alimentos de quatro caminhões. Dias depois, com um facão retalhou algumas das 42 cabeças de gado abatidas na Fazenda Mestiço.
Uma das centenas de protagonistas de duas ações controversas do MST, D. se diz envergonhada pelo que fez, mas não arrependida. A culpa não é nossa. Para matar a fome dos meus filhos, faria tudo de novo. D. diz ter ficado constrangida ao explicar para um dos filhos, de oito anos, por que no último dia 15 os sem-terra pararam à força os caminhões carregados com alimentos. Ninguém quer passar uma imagem ruim para as crianças.
Antes de engrossar as fileiras do MST, ela ganhava R$ 100 mensais como empregada doméstica em Mundo Novo (MS). D. ficou sabendo que o MST estava arregimentando pessoas para ocupar a Fazenda Santo Antônio e decidiu, já adulta, retornar ao campo que deixara quando pequena - seu pai era trabalhador braçal. Agora D. embala seu maior sonho: ter um terreno para construir uma casa, uma boa horta, criar vacas leiteiras, cultivar mandioca e batata-doce, nessa ordem. O que mais move a gente é a esperança, diz ela.


