Rio de Janeiro - Vivendo há 13 anos com aids, o ator carioca Cazu Barros, de 30 anos, conseguiu na Justiça o direito de usar maconha para combater os efeitos desagradáveis dos remédios que toma diariamente. A erva ajuda a evitar as náuseas, a falta de apetite, a insônia e a dor de cabeça que ocorrem em decorrência das dezenas de comprimidos que formam o coquetel anti-HIV que mantém Cazu sem os sintomas da doença. ''O juiz reconheceu o meu direito, mas a minha luta por esse direito me custou uma semana de cadeia'', conta.
Em 1999, Cazu foi aconselhado por sua médica por causa dos vários estudos que provam que a droga é benéfica para doentes de aids - assim como para pessoas que sofrem com câncer, esclerose múltipla, glaucoma e dores musculares. O ator passou, então, a comprar maconha ilegalmente, mas acabou sendo preso em uma favela do Rio no mesmo ano. ''Eu e o traficante fomos presos e tratados da mesma forma. Só consegui ser solto com a ajuda de meus amigos militantes de aids'', conta.
No mesmo ano, uma ação movida judicial pelo Pela Vidda, uma ONG de luta contra a doença, conseguiu garantir o direito de uso para Cazu. Mas mesmo com permissão para usar a droga, Cazu continua sendo obrigado a recorrer a traficantes para conseguir o remédio. ''O ideal é que o uso medicinal fosse aprovado no País e pessoas como eu pudessem usar e comprar maconha legalmente'', afirma Cazu.
É essa a luta de ativistas como o deputado federal Fernando Gabeira (PT) e o professor-titular de medicina e sociologia do abuso de drogas da Universidade Estadual de São Paulo (Unifesp), Elisaldo Carlini. Um dos primeiros a defender a bandeira da descriminalização da maconha, Gabeira agora pretende apresentar um projeto de lei no Congresso pedindo a liberação do uso medicinal.
O deputado vai basear o projeto nas mudanças da lei que já ocorreram em países desenvolvidos. Um dos exemplos mais bem-sucedidos é o do Reino Unido. Os britânicos aprovaram o plantio legal da maconha para a produção de remédios. Naquele país, é o próprio governo que contrata empresas para plantar a erva.
A Holanda é outro país europeu que permite que doentes usem a droga. Até mesmo os EUA, seguindo o exemplo do vizinho Canadá, já começa a mudar e acabou de registrar um remédio (Marinol) com base no princípio ativo da maconha. ''Mas no Brasil a questão é imutável por causa das barreiras culturais. Nem sequer se cogitou usar o princípio ativo da 'Cannabis' como medicação'', afirma o professor Carlini, que é membro da International Narcotics Control Body, um órgão da ONU que avalia o uso de drogas.
''Ninguém está dizendo que a maconha em excesso não faz mal, mas acho um atraso mental não se permitir que haja remédios à base do princípio ativo, principalmente porque seus benefícios já estão provados. O problema é que existe uma visão moralista geral, que atinge até mundo médico'', disse o professor.

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