Macau vive tensão antes de voltar ao controle da China Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 25 (AE) - O adeus ao segundo milênio e a entrada no terceiro será marcado por muitos acontecimentos: para os espíritos melancólicos, será o início de alguns apocalipses. Para os espíritos realistas, será preciso desconfiar do "bug".
E haverá um outro acontecimento, uns dias antes do ano 2000: no dia 19 de dezembro, à meia-noite, o território de Macau, que pertencia a Portugal, será restituído à China, seguindo a via aberta há pouco pela devolução à China da ex-colônia inglesa de Hong Kong.
A data de 20 de dezembro não diz respeito apenas à história portuguesa e à chinesa. Ela vai fechar um longo período da história mundial, o que vive a conquista da terra pelos navegadores de Portugal e da Espanha, acompanhada da formação dos Impérios de Paris, Londres ou Lisboa.
A minúscula quase ilha de Macau (23 km2) no sul do colosso chinês, foi fundada por Portugal a partir de 1516. Foi a primeira presença européia na China. Será também a última, pois a longa, prestigiosa e, às vezes, lúgubre página da colonização européia no Extremo Oriente será virada no dia 20 de dezembro, após pouco menos de cinco séculos.
A cessão de Macau a Pequim será feita em virtude de um acordo assinado com Lisboa, em 1987. Mas, se com isso, de um lado, a China volta a ser soberana, por outro, Macau vai conservar um status particular, muito próximo do que desfruta sua vizinha Hong Kong: Macau vai se tornar uma "região autônoma específica da China" e conservará, durante cinquenta anos, uma certa autonomia, salvo sobre as questões de política estrangeira e de defesa. Sua moeda permanecerá a "pataca", ao lado do "iuane" chinês.
A China respeitará o acordo de 1987 e a autonomia parcial de Macau? Espera-se que sim, mas alguns alertas inquietam.
Em 1975, os portugueses decidiram retirar todos os seus soldados de Macau. Foi um desastre! Macau, cidade do prazer, dos cassinos e do luxo tornou-se cidade de "gangues". Essa cidade de 400 mil habitantes viu multiplicarem-se os assassinatos, cometidos pelas sociedades secretas ou mafiosas: "as Tríades chinesas". A insegurança rechaçou os turistas: no ano passado, foram registrados 6,5 milhões de turistas, uma redução de 4% em relação a 1996. Os cassinos vegetam.
Diante dessa elevação do número de mortes, os chineses anunciaram que vão estender uma guarnição de mil soldados, dotados de poder policial.
Essa ampliação de soldados chineses é concebível. Mas é contrária à Constituição de Macau. Sem dúvida, ela será obrigada a rever a Constituição, e é o que temem seus habitantes: a China pode aproveitar dessa revisão constitucional necessária para pôr suas garras sobre Macau.
No entanto, os otimistas pensam que, apesar de sua agressividade atual contra o Ocidente, Pequim deveria se manter prudente, pois, no plano econômico, a ex-colônia pode desempenhar um papel fecundo: Macau é muito estreitamente ligada à Europa, em primeiro lugar porque um quarto de seus 400 mil habitantes (embora 99% sejam chineses) são portadores de um passaporte português. E, em seguida, porque Macau anunciou que manterá vínculos muito estreitos com a Europa de Bruxelas.
Ora, Pequim não se agitou. Por quê? Simplesmente porque Macau será o único território chinês a ter relações com a União Européia e poderá, assim, desempenhar um papel de passarela entre a China e a União Européia.
Macau deve, por outro lado, conservar sua atração para os turistas. Se Macau tem um nível de vida elevado (o quarto da ásia, após o Japão, Cingapura e Hong Kong - PIB de 17 mil dólares por habitante) deve-se menos à sua magra economia do que a seu mito exótico, seus jogos, cassinos e também à lembrança de suas belas espiãs ou prostitutas do gênero Marlene Dietrich, que alimentaram, antes da guerra, muitos sonhos do Ocidente.
Reconheçamos, entretanto, que os turistas que voltam de Macau não escondem sua desilusão: a nova Macau, dizem eles, está purgada dos odores sulfurosos que pairavam em seus hotéis de luxo na Belle Époque.
Foram substituídos por outros aromas, emanados metade pelo Partido Comunista, metade pelos crápulas das Tríades.





