LUTA DIÁRIA - A força de trabalho que vem de longe
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segunda-feira, 14 de maio de 2018
Simoni Saris<br> Reportagem Local 

Desde 2010, a vida do haitiano Jean Faustin, 28, tem sido de lutas diárias por sobrevivência. Em 12 de janeiro daquele ano, um forte terremoto atingiu o país e causou a morte de 230 mil pessoas, feriu 300 mil e deixou outras 1,5 milhão desabrigadas. Ele saiu ileso do tremor, mas não escapou das dificuldades que sucederam o desastre natural. A falta de infraestrutura básica e a crise econômica que fez disparar o índice de desemprego no país trouxeram desafios insuperáveis a uma grande parte da população e Faustin desistiu de tentar fazer as coisas melhorarem. Em 2015, decidiu que era hora de recomeçar a vida em outro país. Reuniu o pouco dinheiro que tinha e comprou uma passagem para o Brasil.
Fluente em crioulo, francês e espanhol, em Gonaïves, cidade onde vivia, o haitiano ensinava línguas a crianças e adultos. Ao desembarcar no Brasil, sem saber falar nenhuma palavra em português, Faustin providenciou alguns documentos e seguiu para Rio do Sul, em Santa Catarina. "Fui trabalhar em um frigorífico, com abate de porcos. Nunca tinha feito isso", conta.
Assim como ele, imigrantes de vários países desembarcam todos os dias no País na esperança de uma vida mais digna. Os haitianos são o caso mais representativo. Eles não são a principal nacionalidade com carteira assinada, mas desde 2013 a participação desse povo no mercado formal de trabalho vem crescendo, superando imigrações clássicas, como os portugueses. O Sul do País e o final da cadeia produtiva do agronegócio são, respectivamente, a região e o setor econômico que mais recebem imigrantes, especialmente haitianos, senegaleses e, mais recentemente, venezuelanos, segundo aponta relatório elaborado pelo OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), da UnB (Universidade de Brasília).
Conseguir trabalho por aqui, no entanto, não é tarefa fácil. A crise econômica que reduziu as vagas de emprego dá sinais de enfraquecimento, mas a recuperação plena ainda deve levar algum tempo. Se está difícil para os brasileiros, para quem não domina a língua o cenário é ainda mais desafiador.
O ingresso no mercado formal de trabalho tem acontecido aos poucos, com a ajuda de organizações, como as cáritas e as pastorais, que têm se esforçado para fazer o elo entre a mão de obra estrangeira e os empregadores. Foi assim com Faustin. Depois de passar um ano em Santa Catarina, em 2016 ele se mudou para Cambé, na Região Metropolitana de Londrina, e conseguiu uma vaga em uma fábrica de embalagens. Hoje, está empregado na Menu Escola de Gastronomia, em Londrina, onde faz serviços de limpeza.
O emprego atual foi obtido por intermédio da Pastoral do Migrante. "Conhecemos o padre Romão (Martins), que era da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, e um dia ele veio à escola dar uma bênção e disse que tinha muitos haitianos procurando emprego. Entrei em contato com a irmã Inês (Facioli, assessora da Pastoral do Migrante) e ela trouxe o Jean aqui", disse a gerente administrativa da Menu, Carolina Carvalho Dias do Nascimento. "A intenção era dar uma oportunidade a um imigrante. Pensamos em uma função que ele pudesse exercer. A gente vê que ele tem muita força de vontade, é muito rápido, mas a maior dificuldade é o idioma."
Faustin foi contratado no novo emprego há nove meses e afirma estar "muito feliz". Quando decidiu vir ao Brasil, o dinheiro que tinha não era suficiente para pagar pela passagem da mulher e do filho e ele teve de deixar a família no Haiti e embarcar sozinho. Na empresa, além da oportunidade de trabalho e renda, contou com a solidariedade de pessoas que se comoveram com a sua história e se engajaram em uma campanha de arrecadação de dinheiro, móveis e utensílios domésticos. Com o valor obtido e as doações, Faustin pôde organizar a casa onde mora e trazer a mulher e o filho, hoje com quatro anos de idade, para viverem com ele. "Aqui no Brasil estou muito bem. Quero melhorar o português para poder voltar a estudar e melhorar ainda mais de vida", planeja.


