Luta contra diabetes causa abalo emocional
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de outubro de 2004
Luciana Sobral<br>Agência Globo 
Pelo menos 42% dos diabéticos sofrem com problemas psicológicos por conta da doença. Além disso, 40% deles se sentem estressados. Muitos ainda se preocupam em não cumprir com suas responsabilidades familiares e sociais. Os dados fazem parte de uma pesquisa inédita realizada com 5.426 pacientes e quase 3.900 médicos e profissionais de sa© úde em 13 países (Austrália, Dinamarca, França, Alemanha, Índia, Japão, Holanda, Noruega, Polônia, Espanha, Suécia, Reino Unido e EUA).
Batizado de Dawn e idealizado pelo laboratório Novo Nordisk, o estudo revelou as atitudes, os desejos e as necessidades das pessoas que vivem com diabetes. Os resultados mostram que o bem-estar emocional dos diabéticos vai mal.
E o que é pior: o trabalho revelou ainda que os médicos erram no atendimento destas pessoas - fato que estaria relacionado ao alto índice de abandono do tratamento (50%). Afinal, menos da metade dos médicos, mesmo os especialistas, se definem como capazes de identificar as dificuldades psicológicas de seus pacientes.
O assunto foi um dos destaques do 12º Congresso da Associação Latino-Americana de Diabetes (Alad), realizado no final de setembro, em São Paulo. O psicólogo Frank Snoek, professor da Vrije University Medical Center, em Amsterdã (Holanda), e membro do Grupo de Consultores Internacionais do estudo Dawn, conta como o estado emocional influencia no tratamento da doença.
''Só para você ter uma idéia, o Ministério da Saúde estima que 7,6% dos brasileiros, entre 30 e 69 anos de idade, têm diabetes. A prevalência aumenta quanto maior a idade. Metade dos diabéticos, no entanto, sequer diagnostica a doença. ''Apesar de a pesquisa ter sido feita na Europa, Ásia e Estados Unidos, os resultados podem ser extrapolados para países como o Brasil'', garante Snoek.
Este é o primeiro estudo que avalia o comportamento do paciente diabético diante da doença?
Sim. No dia-a-dia percebemos que estes pacientes desistem facilmente do tratamento. Estima-se que metade deles não se trata pelos mais variados motivos, como depressão, medo de encarar a doença etc. Aí pensamos: está faltando alguma coisa. Foi assim que o estudo nasceu - para saber em que aspectos estávamos errando. Afinal, as ferramentas para controlar o problema existem, mas por que pacientes não aderem a elas? Percebemos que pacientes e médicos não estão indo na mesma direção.
Então, por que existe esta baixa adesão ao tratamento?
O trabalho mostrou que o psicológico dos pacientes, que não vai bem, influencia e muito no controle da doença. Tanto é que as pessoas com diabetes tipo 2 demoram até oito meses para ter consciência de que o problema é para a vida inteira. Aqueles com diabetes tipo 1 (insulino-dependentes) levam 16 meses para entender que a doença é mesmo crônica. Quando a pessoa descobre que está com diabetes, há uma forte tendência para a depressão, pois cria-se um círculo vicioso. A pessoa tem de baixar o nível de açúcar no sangue e, quando não consegue, entra no fundo do poço, pois acha que não vai conseguir e se culpa.
E os médicos. Eles contribuem para este ''mal-estar emocional''?
Sim. Eles, assim como outros profissionais de saúde, também têm culpa. Claro que nada é feito de propósito, mas isso acaba prejudicando a recuperação do paciente. Por exemplo, a cada três meses o diabético precisa medir sua glicemia. Até aí, tudo bem. Mas quando o resultado ainda não é bom, o médico reforça um possível ''mau comportamento'' do paciente. Como inicialmente o diabético não tem sintomas, desiste do tratamento. Não é assim que se faz. O especialista precisa abrir um diálogo, perguntar sobre o que aconteceu com a pessoa e tentar descobrir por que a glicemia não baixou, pensando sempre que há um paciente na sua frente.
No estudo, vocês identificaram as necessidades do paciente. O que eles querem?
Claro que, se fosse possível, eles gostariam de ter a doença curada, mas, como não dá, os pacientes desejam viver ''normalmente''. Isso significa não abrir mão de seus planos por causa da doença e ser compreendido. Não queremos que os diabéticos ''aceitem'' a doença, mas se adaptem a ela. E é por isso que queremos incentivar os médicos a estimularem positivamente seus pacientes. Tanto é que estamos mostrando os resultados do estudo em congressos e criando grupos de discussões.
Podemos dizer que os diabéticos também precisam de apoio psicológico?
Isso é muito importante e já está acontecendo em vários lugares, inclusive no Brasil, com as associações de pacientes. Para conviver bem com o diabetes, a pessoa precisa entender a doença. Muitas vezes, ela sai do consultório sem entender nada. Acho que a grande mensagem para os diabéticos é: pense em suas aspirações. É perfeitamente possível alcançá-las mesmo com o diabetes.


