São Paulo, 25 (AE) - O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, chamou hoje de "irresponsável" a direção do partido no Rio por incentivar a disputa entre militantes favoráveis e contrários ao governador Anthony Garotinho (PDT). "Acho que o PT agiu de forma irresponsável porque, desde o começo desse governo tenho ponderado que é preciso negociar com o Garotinho enquanto partido, e não tratando de interesses pessoais", criticou Lula, numa referência ao grupo do deputado federal Carlos Santana, eleito no domingo presidente do PT fluminense.
Lula disse que Garotinho cometeu "um erro grave" ao afirmar que o PT deveria mudar o nome para "Partido da Boquinha" por reivindicar constantemente cargos. No domingo, uma convenção regional decidiu que os petistas devem pôr à disposição os cargos que ocupam no governo. Mesmo sustentando que Garotinho "não poderia jamais generalizar a crítica", Lula procurou atenuar a crise e fez elogios ao governador, para não azedar ainda mais o relacionamento na frente de oposição.
"Vendemos ao povo do Rio a idéia de que Garotinho era o melhor candidato e, na minha opinião, ele está fazendo um bom governo", afirmou. "Se começarmos a estabelecer divergências com o PDT, nosso principal aliado, isso causará problemas para nós." Tanto ele quanto o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu - que participaram hoje de uma manifestação, em São Paulo, contra a privatização da Cesp -, acham que o partido deve permanecer no governo.
Na tentativa de pôr panos quentes sobre a rede de intrigas que tem marcado a relação entre as siglas de esquerda, Lula fez várias críticas aos radicais petistas. "O que o PT do Rio tem de aprender é que o Garotinho não é um governador do PT: ele é do PDT e, então, precisamos tratá-lo como aliado", disse. No ano passado, a cúpula do PT chegou a intervir no diretório fluminense para selar a aliança de apoio a Garotinho. Em troca, o PDT deu aval a Olívio Dutra (PT), eleito governador do Rio Grande do Sul. O acordo envolveu o presidente do PDT, Leonel Brizola, que foi vice na chapa liderada por Lula à Presidência. Mais: na época, ficou acertado que a senadora Benedita da Silva (PT-RJ), atual vice-governadora do Rio, seria candidata à prefeitura carioca.
"Há uma crise e precisamos encontrar uma solução para o impasse", admitiu José Dirceu. "Mas o melhor caminho a seguir é continuar no governo." Ele afirmou que "existe uma celeuma" sobre a decisão tomada no domingo pelo diretório do PT fluminense. Na sua intepretação, o PT não resolveu sair do governo, mas apenas entregar os cargos para deixar Garotinho à vontade. Dirceu conversou hoje por telefone com o governador do Rio. "Garotinho me comunicou que ia demitir o secretário dos Transportes (Raul de Bonis, indicado pelo deputado Carlos Santana, da corrente Opção Popular), mas que queria a continuidade do PT no governo", disse.
No diagnóstico de Dirceu, é preciso repactuar a aliança com o PDT. "Não existe essa história de PT do A e PT do B", comparou. O líder do PT na Câmara, José Genoíno, concordou com o colega. "É inadmissível aceitar que o partido seja tratado dessa maneira, porque aí fica parecendo que há um PT que trabalha e outro que não trabalha", argumentou. Mas, para o deputado Arlindo Chinaglia, secretário-geral do PT, não há motivos para amenizar o conflito. "A atitude de Garotinho foi antiética e desleal com o PT e agora ele quer recuar, mas não pode ser mais uma vez covarde e usar subterfúgios", provocou Chinaglia, defendendo o rompimento com o governador fluminense.
Lula ouviu e não disse nada. Mas, ao ser lembrado que o governador de Alagoas, Ronaldo Lessa (PSB), também criticou o PT pelo fato de a legenda não permitir que os três governadores petistas participassem da reunião com o presidente Fernando Henrique Cardoso, ele reagiu: "Só me faltava essa!", reclamou Lula. "O Lessa que não dê palpite porque o PT já tem mais de 18 anos."

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