Lula diz que Chavez tem mais coragem que FHC
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de agosto de 1999
Por Vera Rosa 
Sumaré, SP, 18 (AE) - O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, elevou hoje o tom das críticas ao governo para reagir aos comentários de que está apoiando o golpismo por defender o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Lula disse que Chávez teve "um pouco mais de coragem do que a média dos presidentes da América do Sul" porque, depois de empossado, convocou eleições gerais para a formação de uma Constituinte. "O que Chávez fez foi mais limpo, mais transparente e mais decente do que dar dinheiro na calada da noite para os deputados aprovarem a reeleição", provocou o petista, numa referência ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
Sem citar que Chávez usou a vitória eleitoral para alargar seus poderes, praticamente esmagando o Congresso, Lula voltou a aplaudir o presidente venezuelano, como fez na semana passada em entrevista ao jornal argentino "La Nación". "Digo e repito que achei sensacional a idéia dele de acabar de ganhar a eleição e convocar uma Constituinte", elogiou. "Ele poderia ter feito como o Fujimori (Alberto Fujimori, presidente do Peru), que utilizou o poder imperial para depor as instituições, ou como Fernando Henrique, que corrompeu os deputados para votar a emenda da reeleição, mas não fez nada disso." Na avaliação de Lula, Chávez não agiu de forma autoritária, mas sim "enveredou pelo caminho certo". Também sem mencionar que o presidente venezuelano elegeu a mulher para a Constituinte e pôs um irmão num governo estadual, Lula chegou a dizer que tudo o que Chávez fez até agora foi "um gesto de decência" em relação às práticas de Fernando Henrique, Fujimori e Carlos Menem, da Argentina.
O petista não quis, porém, fazer nenhuma previsão sobre o futuro. "Não me peçam para dizer se vai dar certo ou não, porque eu não tenho bola de cristal", afirmou. Depois, cobrou o fato de Fernando Henrique não ter convocado uma Assembléia Constituinte. "Todo mundo sabe, por exemplo, que sou contra a reeleição, mas tem jeito mais democrático do que uma Constituinte para mudar as coisas?", perguntou.
Irritado com a polêmica desencadeada depois de sua entrevista ao "La Nación", Lula continuou dando estocadas no presidente. "Fernando Henrique poderia ter chamado uma Assembléia assim para propor mudanças na Constituição, mas, ao invés disso, promoveu um autoritarismo ao contrário", definiu. Para explicar sua afirmação, ele disse que "o presidente do Brasil e os partidos aliados desmancharam a Constituição e venderam patrimônio público". E desafiou: "Por que o governo não faz uma pesquisa para verificar se as pessoas acham isso democrático?"
Lula fez as afirmações durante visita ao Assentamento 1 de Sumaré, a 110 quilômetros de São Paulo. Pela primeira vez em seus 131 anos de história, a cidade tem um governo de esquerda: o prefeito, Antônio Dirceu Dalben, é do PPS, e o vice, José Antônio Bacchin, é do PT. O assentamento é da época do governo Montoro e hoje foi inaugurada a sede da cooperativa agrícola. Ao falar para as 52 famílias ali abrigadas, Lula lembrou que ainda hoje os PMs que participaram do massacre de Eldorado dos Carajás
no Pará, estavam sendo julgados.
"Alguém tem de pagar pelas pessoas que morreram naquela chacina", observou. Antes de ir embora, rezou com os pequenos agricultores. "Se a reforma agrária for feita, grande parte da crise brasileira estará resolvida", disse.


