O presidente de honra do PT, Luís Inácio Lula da Silva (foto), defendeu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, apoiando a proposta de um de seus líderes, João Pedro Stédile, de ocupar as escolas abandonadas pelo poder público. ‘‘Temos milhões de crianças fora das escolas’’, afirmou. ‘‘Se há escolas desativadas é necessário ocupá-las com estas crianças, enchendo todas as salas de aula’’, concluiu. Lula deu estas declarações ontem em entrevista à rádio Gaúcha, de Porto Alegre (RS). Ele é um dos participantes do 7º Foro de São Paulo, congresso que reúne representantes de partidos de esquerda latino-americanos, que se realiza na cidade.
‘‘O rádio e a televisão têm mostrado sistematicamente o abandono, a evasão escolar, crianças que não estudam porque têm de trabalhar. Então não é possível que neste País tenha alguma escola abandonada’’, argumentou. ‘‘Eu acho que não pode existir neste País nenhuma escola vazia. Onde tiver, temos que colocar 40 crianças em cada sala’’, propôs. Em Brasília, anteontem, durante o 1º Encontro de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária, 600 professores ligados ao MST acataram a proposta de Stédile de, em colaboração com cada comunidade, reabrir as escolas fechadas. Apenas em São Paulo, mais de cem estariam nesta situação. Se a Justiça impedir a reabertura, eles deverão ministrar suas aulas em ruas e praças.
‘‘É importante para o Brasil, para a democracia e para o PT que existam movimentos como o MST, o dos sem-teto, como existiu no passado o dos metalúrgicos do ABC’’, comparou. Lula justificou que, em alguns momentos, tais movimentos sejam ‘‘mais radicais’’ do que um partido político. ‘‘É muito cômodo quem está numa situação mais confortável ficar criticando quem está no embate direto’’, analisou. ‘‘É difícil chegar num acampamento e dizer para pessoas, que estão há dois anos na beira da estrada esperando um pedaço de terra, que tenham paciência’’, ponderou. ‘‘Quando se toma café da manhã, almoça e janta é fácil ter paciência. Agora, quando não se toma...’
Lula enfatizou que, a seu ver, ‘‘não há nenhum radicalismo no discurso do MST’’, considerando-se que, nos últimos dez anos, ‘‘ocorreram mais de 960 mortes de militantes do movimento’’. O presidente de honra do PT ainda assinalou que as posições mais radicais não surgem apenas por parte dos sem-terra. ‘‘Do lado do latifúndio, também existem’’, notou. Para ele, o fato do ministro extraodinário de Política Fundiária, Raul Jungmann, ser um ex-militante comunista, não irá também solucionar o problema. ‘‘Não basta ter o rótulo na testa de que foi comunista. É preciso saber se ele tem vontade política de fazer as coisas’’, afirmou.

mockup