Rio, 11 (AE) - O comando nacional do PT decidiu intervir na crise entre a seção fluminense do partido e o governador Anthony Garotinho (PDT), mas a iniciativa gerou mal-estar e poderá agravar o conflito de tendências petistas. Sem avisar à cúpula regional da legenda, o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, encontrou-se secretamente com o pedetista e propôs que seja feito um protocolo político para encerrar a guerra interna da agremiação. O presidente do PT do Rio, Carlos Santana, soube da conversa pelo noticiário, irritou-se, cobrou explicações de Lula e negou que o acerto tenha sido feito.
"Falei com o Lula há pouco e ele me disse que veio conversar com Garotinho sobre o manifesto da oposição que vai sair no dia 18", disse ele, à tarde. Santana garantiu que Lula afirmou que não tratara com Garotinho do protocolo, uma idéia que disse ser antiga. Essa versão, porém, é contraditória em relação à do secretário de Planejamento, Jorge Bittar, testemunha da conversa, que garantiu que Lula propôs ao governador que fosse lançado o documento.
O acordo Lula-Garotinho foi fechado num jantar que acabou na madrugada de ontem (11), no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador. O encontro fez parte de conversas de Garotinho com a cúpula nacional da Articulação, ocorridas desde o início da crise. Segundo Bittar, houve um mal-entendido: Lula se propôs a articular o protocolo junto ao PT fluminense, mas será a direção regional que vai firmá-lo com Garotinho. "Isso é um problema nosso, do presidente Carlos Santana", disse.
Reservadamente, Santana comentou que o presidente de honra do partido pode jantar e conversar com quem quiser, mas que acordos são fechados pela executiva da legenda, que não foi consultada. A crise foi aberta pela decisão do 18º Encontro Estadual do PT de entregar os cargos dos petistas no governo, em reação a Garotinho, que chamou o PT de "partido da boquinha", por supostamente ambicionar cada vez mais cargos.
Documento - Na conversa com Garotinho, ficou acertado também que a participação do PT no governo passará a ser regulada pelo partido, o que não tem ocorrido. "Como o partido estava muito fragmentado, os nomes não foram referendados pelo PT do Rio, mas por lideranças", disse Bittar. "Agora, isso não vai mais acontecer, mas vai ser o diretório regional que vai sugerir os nomes, não o nacional." Uma das preocupações do secretário, um dos líderes no Estado da Articulação, tendência de Lula, era desfazer a impressão de que a cúpula nacional do PT substituiu a direção regional na relação com Garotinho.
Paralelamente às articulações de Lula, o comando local da Articulação decidiu que vai lançar um documento formalizando a permanência do PT no governo. "O governador propôs a formação de um conselho político com os partidos, melhorar sua relação com as bancadas e, de certa maneira, se retratou das declarações da boquinha", disse William Campos, porta-voz da tendência no Rio.
"Diante disso, concluímos que não existe mais motivo para entregar os cargos." O grupo, que tem maioria de um voto no diretório regional, quer aprovar o documento na reunião do próximo dia 25, revogando, assim, a decisão de sair do governo, defendida pelas tendências Opção Socialista, Opção Popular, Campo de Ação Popular e Refazendo.

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