RIO, 27 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso escolheu, convidou e obteve resposta afirmativa do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros para ocupar a presidência da Petrobrás, em substituição a Joel Rennó, informou hoje o jornal "O Estado de S. Paulo". Mendonça de Barros, porém, quer esperar a conclusão do inquérito que apura se houve ou não favorecimento ao Banco Opportunity na privatização da Telebrás para, só depois, assumir o cargo.
Fernando Henrique tentava falar com Mendonça de Barros desde o carnaval e conseguiu encontrá-lo na terça-feira, um dia depois de seu regresso de uma viagem de férias na Europa. Conversaram por telefone. Na quinta-feira o ex-ministro almoçou, em São Paulo, com o ministro das Minas e Energia, Rodolfo Tourinho, e acertaram o compromisso.
Além do presidente da estatal, Joel Rennó, serão substituídos todos os atuais integrantes da diretoria e do Conselho de Administração da estatal. Depois da posse, Mendonça de Barros vai tratar da escolha de nomes para os cargos, mas já encontrará algumas indicações, entre elas a do atual dirigente do Grupo Itamaraty, Antonio Maciel Netto, que conhece bem a empresa por dentro, por ter sido ex-funcionário e ex-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet).
A primeira ação de Mendonça de Barros será convocar assembléia-geral de acionistas para mudar o estatuto da estatal, que está defasado desde setembro de 1997, quando foi aprovada a lei que tirou da Petrobrás a responsabilidade pela execução do monopólio do petróleo. A demissão de Joel Rennó e demais diretores está decidida há mais ou menos um ano, mas uma sucessão de fatos deram à ele sobrevida prolongada. Ora era o temor por uma reação do Congresso, que poderia se refletir negativamente em votações de matérias de interesse do governo, ora as eleições recomendavam não mudar, ora a crise econômica absorvia todo o tempo do presidente. A verdade é que Rennó foi ficando e sairá da empresa ostentando o título de mais longa permanência no cargo nos 45 anos de vida da estatal.
Nesse período de um ano muitos candidatos surgiram para assumir a presidência da maior e mais poderosa empresa da América Latina, mas o presidente Fernando Henrique Cardoso considerou apenas um: o do atual presidente do Banco do Brasil, Andréa Calabi, que, convidado em julho do ano passado, recusou o convite. O diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Davi Zylbertszjan, também foi lembrado, mas a lei que criou a ANP impede que ele exerça atividade em qualquer empresa petrolífera antes de cumprir a quarentena. José Pio Borges foi cogitado mas, indo para a Petrobrás, desfalcaria o BNDES.
Além deles há um nome que não emplacou: há dois meses, amigos influentes do ex-presidente do Banco do Brasil Paulo Cesar Ximenes têm procurado pessoas próximas à Fernando Henrique para indicá-lo, mas a alternativa não foi bem recebida no Palácio do Planalto.
A idéia de indicar Luiz Carlos Mendonça de Barros surgiu na cabeça do presidente da República no fim do ano passado. Na época, Mendonça de Barros afirmou ao Estado que, como engenheiro
gostaria de ocupar o cargo, mas não antes de ser inocentado no inquérito do grampo telefônico no BNDES.
Mais: até o carnaval viajaria em férias e não queria ouvir falar de trabalho. De volta do Brasil, o convite foi refeito e o acerto sacramentado em almoço, na quinta-feira, com o ministro das Minas e Energia. O nome de Mendonça de Barros para a Petrobrás teve concordância imediata do ministro Rodolfo Tourinho. Os dois são amigos e Tourinho deveria ser o presidente do BNDES, caso Mendonça de Barros assumisse o Ministério do Desenvolvimento. Agora, os papéis se inverteram.
A mudança na direção vai significar uma guinada radical no estilo de dirigir a Petrobrás. Ao contrário de Rennó e companheiros, que o tempo todo boicotaram a ação da ANP na tarefa de criar ambiente de competição com outras empresas, Mendonça de Barros deverá trabalhar afinado com o interesse maior do governo neste momento, que é provocar competição de mercado, atrair empresas e investimento estrangeiro, criar novos empregos e dar pluralidade à indústria petrolífera. Para isso é preciso mudar conceitos e valores que prevaleceram na Petrobrás e no corpo de funcionários ao longo de 45 anos de monopólio.
A privatização é uma questão em aberto, sobre a qual o diretor da ANP, Davi Zylbertszjan, já se manifestou contrariamente: prefere vender ativos separadamente e manter a empresa estatal. Entre as subsidiárias, a BR Distribuidora é sempre lembrada como uma empresa pronta para ser vendida e daria uma ajuda expressiva para o caixa do Tesouro. Essa, porém, é uma questão polêmica no governo e Mendonça de Barros vai tratar de definí-la.

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