São Paulo, 19 (AE) - O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola não acredita num agravamento da situação de instabilidade financeira na Argentina, que já provocou uma queda de 5% no índice Merval hoje. "Não acho que a Argentina terá um problema maior, mas se isso ocorresse, seria ruim para o Brasil ", disse Loyola.
Isso porque os investidores externos não fariam distinção entre os dois países, no curto prazo. "Só quando a poeira assentasse, eles perceberiam as diferenças entre Brasil e Argentina."
Segundo Loyola, a Argentina tem uma defesa automática contra a instabilidade financeira, que é o regime de currency board. "Se houver uma fuga de capitais, há a redução da oferta de moeda", explicou, ponderando que haveria um agravamento da atual recessão, pelo aumento das taxas de juros. Esse, de acordo com ele, é um "estabilizador" que garante a defesa do peso a um ataque.
"Resta saber se, politicamente, uma recessão adicional é sustentável", indagou Loyola, sobre possíveis resistências ao ajuste. O início dessa situação de instabilidade, segundo o ex-presidente do BC, veio da resistência de alguns governadores de províncias argentinas em aceitar um corte de US$ 360 milhões no Orçamento do país. Hoje, os governadores aceitarem um corte de US$ 250 milhões. "Um corte desses não é pouco", disse Loyola, apostando numa posição majoritária em defesa do regime cambial.
O viés de alta para os juros norteamericanos, anunciados hoje, foi um "complicador adicional" para reforçar a instabilidade financeira argentina, segundo Loyola. "O Brasil também tem um pouco a ver com a crise, à medida que a desvalorização do real aumentou as exportações brasileiras para lá e reduziu as compras da Argentina."
Juros - A queda do IPC-Fipe para 0,12% na segunda quadrissemana de maio reforça o espaço para o governo acelerar a queda das taxas de juros, na avaliação de Loyola. "O Banco Central terá de ser cauteloso, a partir de algum momento, porque não é claro que as pressões inflacionárias foram abandonadas", disse Loyola, que participa amanhã (20) do seminário "Perspectivas da Economia Brasileira", promovido pela consultoria Tendências, da qual ele é um dos sócios. O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, será um dos palestrantes.
Segundo ele, o aumento dos custos de alguns produtos não foram repassados aos preços finais, porque a demanda está baixa, em função da recessão econômica. Loyola citou, como exemplo, o caso dos têxteis. Um dos componentes para a queda do IPC-Fipe foi o item vestuário, embora o preço, em reais, do algodão e de produtos químicos usados nesse setor tenham subido.
"De lado há a recessão e, do outro, a pressão de custos por parte do atacado", afirmou Loyola. Até agora, o varejo reduziu suas margens de lucro, mas, a partir de um reaquecimento da economia, há uma tendência de recomposição dessas margens. Assim, o Banco Central não pode deixar a demanda aquecer muito, o exigirá um monitoriamento estreito da redução futura dos juros.
O viés de alta nas taxas norteamericanas não é, segundo ele, um fator preocupante de imediato. "Um aumento de juros é ruim para o Brasil", afirmou Loyola, sem saber determinar qual seria o "ponto de ruptura" para uma possível saída em massa do investidor externo do País.
Segundo ele, um bom termômetro disso é o comportamento dos bradies. Hoje, houve um recuo nos títulos de países latinoamericanos, mas, a partir dos desmentidos sobre desdobramentos da situação argentina, a queda dos papéis foi reduzida.

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